Introdução
Vinicius Vasconcelos Castro
Graduado em
História pela UEPB
Este trabalho procura
apresentar
os elementos simbólicos presentes na figura do
Orixá Exu Elegbará procurando evidencia-los nas perspectivas de estudo de gênero. Ao mesmo tempo em
que se busca observar e
analisar a
simbologia associada a esta divindade afro-brasileira.
Para desdobrar
este objetivo, procuramos identificar e
categorizar os elementos
que compõem o complexo simbólico deste Orixá, expressos
no que se representa dele em seus mitos e símbolos.
Para a perspectiva de gênero de autores como Scott (1992): A diferença dos sexos é um jogo político que é, ao mesmo tempo, jogo cultural e social. Para este autor
o mais importante seria insistir sobre a historicidade das relações homens/mulheres, as
ideias e os conceitos bem como as diferenças sexuais.
Ainda na perspectiva de estudos de gênero encontramos em Albuquerque Junior,
2003, que:
“As práticas cotidianas de gênero, de ser homem não estão
determinadas nem pela genitalidade, nem pelos códigos de
sexualidade. O gênero nem
é
natural,
sendo
uma criação
histórica e cultural, nem está preso completamente a uma ordem dominante de prescrições. Mesmo dentro de uma cultura como a
nordestina, onde
as práticas, imagens e enunciados definem e
exigem de forma muito estrita, o ser masculino,
as
maneiras de praticar este gênero
são variadas,
as
trajetórias culturais metaforizam a ordem dominante,
impõem a esta
microresistências, gestando
microdiferenças. Trajetórias
culturais
de homens que
muitas vezes podem ser exemplos
da arte no exercício ao mesmo tempo da ordem e da burla”.
(ALBUQUERQUE JUNIOR, 2003, p. 26).
Procuramos a
partir
destas considerações sobre gênero estudar a
identidade
sexual do Orixá
Exu,
que
na
tradição
Ioruba é o mensageiro
e
instrumento de retribuição dos
Orixás (cada um tem o seu Exu). Segundo Senna & Souza (2002). Exu -
Legba – Elegbará e Bará são heterônomos no contexto brasileiro, pois considera a
realidade multifacética de Exu, que ganha poder sobre as encruzilhadas. Contudo, essa
divindade é representada como mestre das palavras (comunicação), das encruzilhadas, guardião das aldeias, das cidades, das casas, do axé e do comportamento humano.
Laroyê, Exu!
Para Verger (1999), Exu é um Orixá de múltiplos e contraditórios
aspectos,
dificultando
assim uma definição coerente. Como Orixá, Exu veio ao mundo com um
porrete fálico (Ogò), tendo como propriedade a capacidade de transporta-lo a centenas de quilômetros e
de atrair, por seu poder magnético, objetos situados a distancias igualmente grande.
Tendo como principal
característica
a
desordem, Exu gosta de provocar acidentes, seja no campo público como no privado, desencadeando brigas ou mal-entendidos, “[...] se ele é o companheiro oculto das pessoas e as leva a fazer coisas insensatas, se excita e atiça os maus instintos,
tem
igualmente seu lado bom e, nisso
E u
revela-se e, talvez, o mais
humanos dos
Ori
a,
nem completamente bom, nem
completamente mau.”
(VERGER, 1999,
p.119 – 122).
Verger (1999) destaca que Exu é representado por um montículo de terra ou de
laterita, que possuem vagamente a forma de um homem agachado.
E que sobre esta forma os fon, enfeitam com uma falo de tamanho respeitável, e que devido esta forma inúmeros
viajantes, erroneamente,
o tornar deus da fecundidade e da copulação.
Na verdade, de acordo com Verger (1999), o pênis ereto é a afirmação de seu caráter truculento, violento, desavergonhado e
o desejo
de chocar os bons costumes. “No entanto, caso se queira excitar Seu contra alguém, basta derramar em cima dele azeite- de-palmiste, citando o nome da pessoa a qual se quer enviar Seu” (VERGER, 1999, p. 129). Durand (2002)
salienta
que
o
esquema do agachamento provocará todos
os
arquétipos do colo e da intimidade.
Segundo Prandi (1997), no candomblé, cada pessoa pertence a um deus/orixá
determinado, que
é o
senhor ao qual rege a sua
cabeça e mente. Assim o sujeito herda as características físicas e de
personalidade pertencente ao seu
Orixá de
cabeça, esta prerrogativa religiosa é de responsabilidade do pai ou da mãe-de-santo que descobri esta origem mítica através do jogo de búzios, sendo de fundamental importância
para o processo de
iniciação dos devotos do terreiro e de importância para se fazer futuras previsões para os clientes e consigo tentar resolver seus problemas.
Verger (1990) nos narra que cada Orixá tem um tipo mítico que é atribuído aos
seus descendentes e segundo o mesmo é através de mitos que a religião de matiz
africana fornece padrões de comportamento
que modelam, reforçam e legitimam o
comportamento dos fiéis. Para Prandi (1997), os seguidores
do candomblé pode
simplesmente tomar os atributos do seu Orixá como se fossem os seus próprios
e tentar aproximar
a sua identidade
à do/a Orixá ou reconhecer
através dos atributos das
divindades as bases que legitimam suas condutas no jogo de construção das identidades.
“Todas as identidades
estão localizadas no espaço e no tempo simbólicos.
Elas têm aquilo que Edward Said chama de suas
“geografias imaginarias” (Said, 1990): suas “paisagens”
características,
seu senso de “lugar”,
de “casa/lar”, ou heimat, bem como
suas localizações no tempo
– nas tradições
inventadas que ligam passado e presente, em mito de origem que projetam o presente de volta ao passado, em narrativas de nação que
conectam o indivíduo a eventos históricos nacionais mais amplos, mais importantes”. (HALL, 2003,
p. 71 – 72).
Assim, os padrões apresentados pelos mitos dos orixás podem ser seguidos, identificar-se com estes comportamentos ou chamar a atenção para aquele ou determinado traço que sela sua identidade perante o seu Orixá de cabeça, mas mudar ou
não o comportamento não é importante, o que
tem como real finalidade e a proximidade
ou sentir-se próximo ao modelo do divino. Para Durand (2002),
o mito é um sistema dinâmico de símbolos, arquétipos e esquemas que tende a compor-se em narrativa. O
mito
é já um esboço de racionalização, dado que utiliza o fio do discurso,
no qual os símbolos se revelam em palavras e os arquétipos em ideias. A mitologia de matriz
africana
assim
como afirma Verger (1999), tem
certo tom
educativo para
com os devotos e suas relações com a natureza, entretanto a tradição oral da narrativa do mito
tem como características a compreensão do homem e sua aproximação ao divino e aos elementos que compõem a sua realidade social.
Oliveira (2003) analisa a cosmovisão dos africanos no Brasil,
a partir, sobretudo, das organizações religiosas, os negros africanos e seus descendentes
recompuseram as
estruturas e princípios tributários de uma cosmovisão de matriz africana e reconstruíram assim seu universo cultural-religioso
preservando,
com
rupturas e continuidades,
alterações feitas a partir de suas necessidades.
Homens e mulheres herdam muitos dos atributos de personalidades de seus orixás, de modo que a conduta de alguém pode ser espelhada em passagens
míticas que relatam as aventuras dos orixás,
legitimando, aos olhos da comunidade
de culto a
personalidade e o comportamento do devoto. Uma das características de personalidade atribuída
às pessoas consagradas a Exu
é: inteligentes, sexy,
rápidas, carnais,
licenciosas, quentes, eróticas e sujas além de gostarem de comer e beber demasiadamente. Contudo, Prandi (1997), destaca
que não se deve confiar nunca em um filho ou filha de Exu, não são dados ao casamento, gostam de andar sozinhos, bebendo e
observando os outros para apanha-los desprevenidos.
Observamos
a partir de Verger (1999), certa passagem mítica que explicaria tais
comportamentos do Orixá Exu:
“E u era um dos membros da família dos Ori a; mas ele se comportava mal. O rei da África pede à família para afastá-lo.
E u
vai embora. Ocorrem festas e são feitas oferendas
aos
Ori a salvo a E u, esquecido por todos. Com frequência ele aparece
nos dias de festas, mas ninguém o reconhece. Sob a influencia
de E
u, as festas sempre terminam em horrível
tumulto. O rei
apela para os babalori a responsáveis
pelo culto e lhes diz que
eles só poderão continuar
a celebrá-lo, se esses escândalos repetidos cessarem. Os babalori a vão consultar um adivinho
que os informa de que, para restabelecer a calma nas cerimônias, é preciso fazer sacrifícios a E u antes de fazê-los a qualquer
outro, e que a oferenda deve consistir
em
um bode e sete
pintinhos”. (VERGER, 1999, p.123).
Além do
mais, Exu sendo o mensageiro dos
outros Orixás, nada
se pode ser feito
sem
primeiro agradar a ele. Tendo um caráter violento e astucioso,
características estas
que estão presente nos seus filhos e filhas deram ao Orixá Exu um sincretismo no contexto religioso afro-brasileiro ao “Diabo cristão e o fizeram símbolo de tudo que é
maldade, perversidade, objeção e ódio, em oposição à bondade, pureza, elevação e amor de Deus”. (VERGER,
1999, p.119). Senna
& Souza (2002), enfatiza que o lugar de Exu não é dentro dos terreiros. Tendo sua
“casa e seu
assentamento ao ar livre, numa casinha isolada do lado esquerdo da casa central ou detrás da porta”. (SENNA & SOUZA, 2002, p.
69).
“O seu símbolo é um tridente de ferro, plantado
sobre um montículo
de terra e, ás vezes, por uma imagem de ferro, representando o Diabo com este objeto. Na Umbanda, Exu é
representado por imagens diversas, singularizadas,
porém, para
cada uma das suas representações. Seu dia é a sexta-feira, o mesmo que os cristãos designam ao Maligno.” (SENNA &
SOUZA, 2002,
p. 69).
Quando se fala no tridente algumas pessoas associam este objeto a uma forma da representação do mal, sendo o tridente um símbolo de poder, representado
a partir dos seus três pontos voltados para cima, que busca alcançar o limiar das alturas, a elevação
espiritual e a base que vai a terra
é o
indicativo de que Exu esta atrelado á vida mundana e que busca o equilíbrio para que se possa crescer espiritualmente, os quatros elementos: ar, água, fogo e terra,
formam em
si mesmo uma ferramenta misticamente
perfeita. Para
Senna & Souza (2002), Exu, na África subsaariana,
era invocado para a defesa dos negros tonto para os seus males como para os seus sentimentos,
“inclusive provocados pela crueldade
colonial” (SENNA
&
SOUZA, 2002, p.
71). Missionários
e colonizadores tornaram Exu o representante do mal
e o
identificaram como
o Diabo. Rodrigues (1935) escreve:
“[...] Esú, divindade adversa
ou pouco propicia aos homens. Esú, Bará ou Elegbará, é um santo ou orisá que os áfrico-bahianos
têm grande tendência a confundir
como o diabo. Tenho mesmo
ouvido de negros africanos que todos os santos podem se servir
de Esú para mandar tentar ou perseguir
a uma pessoa. Em uma alteração qualquer de negros em que quais sempre levantam uma celeuma enorme pelo motivo mais fútil, não é raro, entre nós ouvir-se gritar pelos mais prudentes: fulano olha Esú! Precisamente
como diriam velhas beatas: olha a tentação do
demônio! No entanto sou levado a crer que esta identidade é
apenas o produto
de uma influencia do ensino catholico. Esú é
um orisá ou santo como os outros, tem a sua confraria especial e
seus adoradores. No templo ou terreiro do Gantois, o primeiro dia da grande festa é consagrado a Esú”. (RODRIGUES, 1935,
p. 40).
Carneiro (2002)
enfatiza que
os
deuses são representados por objetos
inanimados e que sob a influência do catolicismo popular
os deuses já se vão fazendo
representar-se pelas suas insígnias – Exu pelo seu Ogò fálico, seu bastão ou pelo seu
pênis avantajado. Em Verger (1999),
as
estatuas de Exu Elegbará trazem as marcas dos
debates eróticos e do exibicionismo e que as mesmas são esculpidas voltadas para um
espirito mais humorístico do que religioso.
“L gba é dos dois sexos,
mas raramente pertence ao feminino. Desse ultimo vi poucos e são ainda mais horríveis que o
masculino. Os seios projetam-se
como metade de salsichas
alemãs e o resto guarda a mesma proporção.
Nesse ponto L gba
diferencia-se
do clássico Pã e do deus Lampsacan, mas a ideia implicada é a mesma”. (VERGER, 1999,
p. 134).
Os arquétipos em Exu Elegbará trazem a tona uma nova forma de pensar o
masculino e o feminino no candomblé. Segundo
Venancio & Del Priore (2004), a
religião africana é ligada às suas dificuldades diárias, sobretudo quando se tratava de aliviar sofrimento e de assegurar paz, prosperidade
e fecundidade. Divindades da natureza confundem-se, muitas vezes, com figuras
humanas deificadas e muitas delas
confundiam-se em
relação ao sexo como é o caso
de Exu Elegbará que para Verger (1999), é “dos dois sexos, mas
raramente do feminino”.
“[...] l gba, deus da geração,
e E u, deus do lar” (VERGER, 1999,
p.135). É identificado com Santo Antônio Eremita, devido a sua frieza sexual, hora representado
como um velho encruzado, usando chapéu de palha é
de
aba larga,
as cores que representa Exu é o preto e o vermelho,
suas contas apresentam-se pelo vermelho e preto
alternado, tendo como elemento mítico o fogo e a terra, são oferecidos bode e galo preto, sendo a farofa com dendê seu prato favorito a segunda-feira e o dia consagrado a
esta divindade.
A falocracia tal como a que percebemos na tradição judaico-cristã não existe na cultura Ioruba,
tão pouco nos cultos nagô, os seus deuses tem características humanas,
que definem seus comportamentos, não só para o Orixá, mas para os seus filhos. O masculino e o feminino representado
em
Exu revela o mais íntimo dos pensamentos humanos, ele é o equilíbrio e ao mesmo tempo o infinito, o seu elo é a busca de novas
formas de compreensão da realidade social.
Sobre esta relação com a realidade social, Olivier & Fage (1980), nos diz que na África as religiões assumem um papel primordial na organização da vida comunitária e na estrutura das suas sociedades.
A dimensão comunitária dessas religiões expressa sua concepção de vida e do universo,
o importante é o bem estar de todos os membros da comunidade.
Não havendo divisão de classes ou privilégios sociais, onde os benefícios
da religião e da religiosidade são universais.
Considerações Finais
Entretanto
a
religião
não
está
desvinculada do cotidiano,
da
política,
da
economia, do relacionamento
entre os sexos, entre outras coisas, a religião é uma forma
de sacralização destas dimensões
na forma de um todo, este todo deve ser administrado tendo em vista a satisfação das necessidades
dos membros, tanto na esfera do sagrado como do profano. Nestas religiões afro-brasileiras os poderes masculinos e femininos
são
complementares, havendo entidades que representam o coletivo e a comunidade. Todo
o universo está dentro de dinâmicas religiosas, abarcando o domínio da cultura,
vida
privada, pública, entre outros.
Contudo, quando os praticantes do candomblé cultuam seus Orixás, cultuam também as forças elementares oriunda
da água, da terra, do fogo, do ar, entre outros. Esse
equilíbrio traz uma enorme energia (Axé) que os auxilia em seu dia a dia. Sendo assim, quando
os adeptos dizem que adoram deuses, referem-se à adoração das forças da natureza, tais como: jazidas de ferro, florestas,
raízes, larvas de vulcão, lagos,
cachoeiras, mares entre outros, pois é através das cores, das histórias/lendas e de seus
elementos que os Orixás são compostos e identificados.
Portanto, a história das religiões afro-brasileiras revela muito de nossas crenças,
além das nossas concepções de identidade sexual. Revela, sobretudo, a mistura entre povos
de cultura e padrões morais diferentes, etnias e grupos
sociais que deram forma a
uma cultura de incorporações e resistências. Ainda hoje, essas manifestações religiosas e seus rituais são testemunhos vivos marcado na gira de um Orixá, no toque do
atabaque
ou no canto em Ioruba, do universo cultural africano assentado
desse lado do atlântico e
em especial aqui no Brasil.
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Notas sobre o Culto aos Orixás
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