Mãe-Criadeira: a construção do cuidado e do respeito pelo humano e pela vida nas tradições religiosas de matriz africana
Esses registros estão, por exemplo, na “feitura de iaô”, momento de nascimento ritual do ser comunitário; no tempo de amadurecimento dos iniciados, porque quanto mais “velhos de santo”, mais portadores de Axé, energia vital; no axexê, cerimônia que ocorre quando os iniciados morrem, e através da qual é criado um campo de transição para sua volta do aiyê (terra) para o orum (céu/infinito), e de elaboração do luto para os que aqui ficaram.
No cotidiano do egbé, sentimos e compreendemos que a vida é constituída de momentos de plácida calmaria em que “nada parece acontecer”, sendo possível ouvir o vento soprar, uma folha cair, e momentos de intenso dinamismo, quando o toque vigoroso dos atabaques cria as condições necessárias para que se reatualize o contato com os Orixás/Bankisi/Voduns. Este conhecimento, incorporado e então traduzido pela palavra e pelo comportamento afetivo dos nossos mais velhos, nossos egbomi, nos apresenta formas dignas de nascer, crescer, amadurecer e morrer, nos ajudando a compreender e lidar com a vida, suas alegrias, impasses e contradições.
Entendo que a tradição do terreiro tem essa possibilidade, porque está alicerçada em uma ordem simbólica que compreende que a vida só pode existir a partir de um sistema inter-relacional, de trocas, no qual cada componente deste sistema que é constituído de homens, divindades, antepassados e de elementos do reino vegetal, animal e mineral, é não só necessário, mas fundamental para a manutenção do todo. Esta dinâmica que integra sistemas de suporte/acolhimento e sistemas de limite não-invasor nos permitiria adquirir formas de organização subjetiva, auxiliando-nos a elaborar os conflitos, os paradoxos naturais que se originam entre aquilo que necessitamos, desejamos, e aquilo que é possível ser obtido em função dos limites da realidade.
No interior desse sistema, iniciados e adeptos, a partir de uma aprendizagem analógica, oral e afetiva, têm a oportunidade de amadurecer e cumprir seu destino.
Podemos perceber o saber do terreiro através dos códigos que compõem o egbé, o barracão, os “assentos”105 dos orixás, as danças, os mitos. Auxiliado pelas mães-criadeiras, um elemento desse sistema, vou tentar mostrar como essa tradição religiosa nos permite aprender a amadurecer, transmitindo e recriando a história de nossa raiz africana.
A mãe-criadeira, que é chamada no terreiro de Jibonã, Ajibonã ou Yá Ojubonã, é um termo que vem do iorubá Yiá Oju Bi Onan, e tem como tradução “a mãe que abre os olhos para o caminho”, ou “a mãe que leva ao caminho do nascimento”. Esse “cargo” é ocupado por uma mulher, iniciada, que tem a responsabilidade de cuidar dos iaôs durante a iniciação. Ela está presente desde a chegada do novo filho à comunidade para o início da “feitura do santo” — gestação comunitária — passando pelo momento do “dia do nome” — parto comunitário — até o final do processo, quando o novo iaô retorna para sua casa e família de origem. Nesse complexo processo ritual o iniciado fica no terreiro por um período aproximado de vinte e um dias, quando vive e absorve novos códigos culturais, afetivos e adquire uma nova família mítica e humana. É preciso dizer que a mãe ou o pai-de-santo são elementos fundamentais na iniciação, porque a eles cabe a manutenção e a transmissão da visão de mundo da comunidade, a memória individual e coletiva do grupo. Entendo, contudo, que a tradição do terreiro em sua psicologia do amadurecimento, através da mãe-criadeira, facilita a criação de uma “atmosfera”, de um campo intersubjetivo para que o “iaô/feto” tenha as condições necessárias para viver o campo de liminaridade que é a iniciação, e construir um outro “ser e viver” no mundo. Costumo dizer que, simbolicamente, a mãe ou o pai-de santo são o corpo comunitário que gesta o iniciado, enquanto a mãe-criadeira é o útero-continente, onde esta gestação se processa.
Conversando conosco, elas vão mostrar como vivenciam e compreendem o processo de nascimento no terreiro. A iniciação visa tornar o novo membro comunitário representante de uma energia cósmica e descendente de uma “nação”.108 Isso só é possível por meio da iniciação, quando não só absorvemos o saber através do conhecimento racional, mas também da linguagem afetiva. Essa linguagem vai sendo absorvida por intermédio da inter-relação com a mãe ou o pai de santo, com a mãe ou o pai-pequeno e com a mãe-criadeira.
Vai sendo também introjetada pelo odor e pela tessitura das ervas que serão passadas em nosso corpo, pelos banhos e preparos que tomamos ou ingerimos, pelo sabor dos alimentos, pelos diferentes formatos que nosso corpo e interioridade descobrirão e absorverão. Entendo que essa “atmosfera relacional” permite que, durante o processo iniciático, possamos, temporariamente, ir nos separando da identidade que até então nos caracterizava como pessoa, vivamos uma gestação comunitária e, então, tenhamos a oportunidade de viver um outro processo de nascimento.
Entendo que a tradição de matriz africana, compreendendo a importância que este processo de nascer de novo possui, instituia iniciação como regra básica, dando-lhe, inclusive, a “qualidade" de sagrado”. O papel da mãe-criadeira é uma evidência da complexidade e da organização desse sistema, já que, semelhante à mãe “comum”, ela é também tomada por um profundo sentimento de identificação com os iniciados que passa a criar. Podemos dizer que, em sua prática de cuidados, a criadeira cuida não só da alimentação, das roupas, do fazer companhia aos iaôs, mas, e sobretudo, da pessoa do iniciado como um todo, de seu corpo, assim como de sua interioridade.
Para dar a elas a palavra e compreender a natureza do vínculo que se cria, vou começar por dizer que faz parte do dia-a-dia dos iaôs “recolhidos” tomar banho ritual muito cedo, antes do nascer do sol. A mãe-criadeira, portanto, acorda antes de seus iaôs, vai à cozinha e deixa preparado o dengué (mingau ritual). Volta ao “quarto do axé”110 (rondemi/bakisse) e começa, com cuidado, a acordar seus filhos. Como diz Mãe Obasse: “Na hora de acordar o iaô, tem que ter cuidado, para ele não assustar...” Segundo ela, é necessário chamar-se o iaô pelo nome ritual, baixinho...Exemplificava-me ela, num quase sussurro: “Iaô de Oxum..., iaô de Ogum..., dofono..., dofonitim...” Mãe Estelita sempre tinha um modo especial de acordar os seus filhos, dando-lhes toques leves na sola dos pés, chamando seus nomes rituais, pedindo que acordassem, aproximando-se deles e abençoando-os!... Como representantes de uma maternidade ancestral de matriz africana, elas sabem que o campo de liminaridade entre o sono/sonho e a realidade deve apresentar o limite, aqui representado pelo acordar e tomar o banho, mas deve ser mediado pelo cuidado e o afeto... sem invasão. Após acordados, os iniciados são levados por ela para o banho ritual, que sempre é dado “no tempo”, ao ar livre, em local sagrado no terreiro. Enquanto a comunidade dorme, os iaôs, guiados pela mãe-criadeira, formando “um cortejo”, vão para o banho e voltam para o quarto onde estão recolhidos, já com suas roupas trocadas e secas, por ela anteriormente lavadas e passadas. O mais rápido possível ela corre para a cozinha para trazer o dengué, porque sabe que, além da fome, seus iaôs precisam ser aquecidos, já que o banho ritual tem a temperatura ambiente, sendo, às vezes, bastante frio.
Dependendo do tempo que levou esse processo e do número de iaôs recolhidos, a criadeira pede que eles durmam um pouco mais e ela mesma volta a dormir até que o dia amanheça. Essa prática diária permanece até o “dia do orunkó”, ou “dia do nome”, chova ou não, faça frio ou calor. Diz Mãe Estelita sobre esse cotidiano:
O que eu penso é aquilo adaptado, que eu tenho que acordar às quatro horas da manhã, tenho que fazer o denguezinho, deixar as roupinhas limpinhas, se o iaô precisar de alguma coisa eu fazer. Você sabe como é, a comidinha é comigo, a rezinha da comidinha é comigo...Podemos observar no falar de Mãe Estelita que, ao utilizar o diminutivo para se referir às suas práticas de cuidado, uma linguagem que as mães têm com seus bebês, evidencia como “sente e compreende no seu interior” a forma de cuidar de seus filhos que estão sendo criados/gestados. Quando amanhece o dia, a criadeira, novamente, acorda antes dos iniciados para preparar o café da manhã ritual. Mãe Cota comenta assim suas atividades:
"Acorda cedo, dá o banho, depois vê se tem alguma roupa para colocar de molho, aí vai ver o chá.Vai rezar. Aí nessas alturas já tem que apressar para fazer a comida dos iaôs, antes que eles comecem a bater paó (palmas rituais) pedindo o almoço.É parte do processo iniciático um momento do dia dedicado às “rezas rituais de fundamento”. Elas são “puxadas”, proferidas, em dialeto africano, pela mãe ou pelo pai-de-santo, no espaço onde os iniciados estão recolhidos. Duram em torno de 50 minutos e, como o nome evidencia, são reconstrutoras do alicerce individual e coletivo do grupo, porque um momento de reatualização e transmissão da memória e ancestralidade comunitária. Acompanhando seus filhos está também a criadeira.113 Continua Mãe Cota: “Vem a rotina e a tarde passa rápido, e vem o café da tarde e o jantar, e vem o defumador e vem a reza; quando chega dez horas da noite, que acabou tudo, você tem vontade de desmaiar.”
Apesar de ser um dia intenso, as mães-criadeiras vivem esse período com carinho, o que fica muito evidente em suas falas. Diz Mãe Carê: Quando eu crio um barco,114 eu fico muito apegada. Pra mim é a mesma coisa, eu tomo aquela pessoa como um filho meu. Meu dia é todo em torno deles (os iaôs). Eu pegava e levava meus filhos pra roça, pra eu poder cuidar de todos ao mesmo tempo. Conta Mãe Estelita: A pessoa (o iniciado) vai entrando pra casa e a gente recolhe e a gente cria, a gente tem uma amizade igual, mesmo os nossos filhos de sangue. A coisa é mesma assim, você se levanta cedo, você lava tudo direitinho, você cozinha tudo direitinho, a gente não faz comida assim, assado, talvez o iaô não saiba, mas é porque tem que ser aquela mesma. Este negócio de iaô prende muito a gente.Termos como “eu fico muito apegada”, “eu levava meus filhos pra roça” (para o terreiro), no dizer de Mãe Carê, ou como “este negócio de iaô prende muito a gente”, exprimem um mesmo sentimento de ser capaz de abrir um espaço em suas vidas, em suas interioridades, para receber e criar os novos filhos. A iniciação tem como um dos seus pontos importantes o “dia do nome”, quando, simbolicamente, se processa o parto comunitário do iaô em presença da comunidade e de convidados adeptos da tradição do terreiro, ou não. Numa celebração ritual, os iaôs serão trazidos por “um cortejo” organizado e orientado pela mãe ou pelo pai-de-santo, mas “puxado”, guiado, pela mãe criadeira. Compreendo que o “cortejo”, simbolicamente, representa um cordão umbilical comunitário, já que os iaôs estão pela primeira vez “sendo paridos” do quarto do axé e trazidos para a vida comunitária. Este “cortejo” é encabeçado pela Yiá Oju Bi Onan, que intermedeia o encontro dos iaôs com o mundo “abrindo o caminho de seus filhos para o nascimento”. Entendo que esta cerimônia é envolvida de cuidados especiais, porque os iaôs estão, simbolicamente, nascendo, e, portanto, convivendo com o limite natural de separação do campo gestacional que é a comunidade. Como “bebês”, frágeis, necessitam de um processo de acolhimento e proteção para que esse momento seja registrado como uma vivência sem encontros inesperados, sem ruptura da continuidade de existir e, portanto, sem traumas. Entendo também que o processo de iniciação permite aos iniciados a construção de uma vivência de segurança, de pertencimento, de sustentabilidade subjetiva. Essa vivência pode no futuro ser acionada quando situações conflitantes naturais da vida forem experienciadas e provocarem situações de vulnerabilidade. A qualidade do vínculo que se estabelece pode ser percebida na emoção comentada pelas criadeiras com relação ao “dia do nome”. Diz Mãe Carê:O dia da “saída” é o mais bonito, mas é o pior dia. Eu fico emocionada e fico preocupada. Nesse dia não tem mais nada que me envolva, eu fico o dia todo ligada nisso. É muita emoção. Eu faço questão, eu tenho orgulho de trazer o iaô para o barracão. Depois do nome eu me sinto uma pessoa tão maravilhada quanto a mãe ou o pai-de-santo, eu me sinto mãe-de-santo. É como ter um filho passando de ano, ou no vestibular, ou se casando. É o mesmo sentimento de ganhar na loteria. Ouçamos Mãe Estelita: Eu acho importante a hora do nome. Meu filho, eu fico tão tensionada! Isso acontece com todos, porque todos são meus filhos, eu considero assim, são os meus filhos! Então eu fico muito feliz, assim na hora que eles “saem”, assim todo bonitinho, todo arrumadinho, que dá o seu recado bonitinho, eu me sinto muito feliz...A qualidade de sagrado que é dada pela tradição do terreiro
a essa celebração do ato de nascer, impregnada que está de cuidado e respeito, é introjetada pelas mães-criadeiras e evidenciada quando falam, como Mãe Carê, sobre emoção, preocupação, orgulho, o fato de passar no vestibular, ver um filho se casando, ou ainda quando Mãe Estelita nos mostra sua felicidade de ver cada um de seus filhos “sair”, ou nascer... Porque, na democracia afetiva de seu coração e sua interioridade, não importam cor, idade, gênero, escolha sexual; o envolvimento, como ela esclarece, “acontece com todos, porque todos são meus filhos, eu considero assim, são os meus filhos”.
Essa lógica de um “saber cuidar”115 e respeitar o humano e a vida que é recriada e transmitida em comunidades de terreiro pode ser também observada em uma experiência vivida por mim, no Ilê Omi Oju Arô.116 Naquele dia, como a tarde estava quente e abafada, o grupo que participava da oficina decidiu que nosso encontro se daria sob a sombra do pé de Iroco. A Ialorixá da Casa, Mãe Beata de Iyemonja — uma mulher negra, baiana, e que antes de abrir seu barracão foi mãe-criadeira em importantes casas de Candomblé do Rio de Janeiro — seus iaôs, egbomis, ogãs e equedes presentes, e nós, componentes do projeto, um pouco seus filhos também, nos acomodamos fazendo um círculo em torno da árvore sagrada onde habita o Orixá Iroco. Alguns momentos depois de começada a oficina, no colo de sua mãe, veio fazer parte do círculo a bisneta de Mãe Beata, bebê de mais ou menos dois meses de nascido, que estava vindo pela primeira vez ao terreiro. Depois de algum tempo da chegada da mãe com o bebê, Mãe Beata se ausenta do grupo por instantes e retorna trazendo em suas mãos um travesseiro grande e um balaio, dos que costumamos usar para “presentes” de Iemanjá e Oxum.117 Sem interromper a oficina, senta-se em sua cadeira, coloca o balaio ao seu lado no chão e, no interior dele, repousa o travesseiro, ajeitando-o com cuidado para ficar bem nivelado.
A seguir pega o bebê, que dormia no colo da mãe, coloca-o com delicadeza sobre o travesseiro e volta a se dedicar ao que continuava sendo apresentado por um dos membros do projeto. Percebi que os filhos da casa acompanharam com “sutil comoção”, um misto de interesse e satisfação, o comportamento da Ialorixá.Porque tomado pelo mesmo sentimento, terminada a oficina, perguntei a alguns dos filhos de Mãe Beata presentes como tinham compreendido e sentido o que acontecera momentos antes. Obtive então, como resposta, que aquela era uma atitude comum de Mãe Beata para com os bebês da comunidade, fossem eles filhos dos filhos-de-santo ou parentes consangüíneos dela. Segundo disseram, ela sempre pegava seu próprio travesseiro, e/ou suas almofadas, para aninhar os bebês que chegavam ao terreiro, os quais ficavam sob sua guarda e atenção, enquanto as mães se ocupavam com suas tarefas. Verbalizaram também a satisfação que o comportamento dela lhes trouxera, sentindo-se muito bem com essa forma de cuidado da Ialorixá, reforçando que “era mesmo mãe de cada um de seus filhos”. Essa experiência mostra que Mãe Beata, sempre mãe criadeira, por ter introjetado nela mesma o saber da tradição negro-brasileira, nos ensinou como criar uma atmosfera de acolhimento e respeito, construindo uma vivência de continuidade e tranqüilidade para o bebê e, diria eu, para os “eu/bebê” de cada um dos filhos presentes. Entendi o travesseiro como metáfora do seu próprio corpo e de sua atitude como um “saber cuidar”. Entendi também que, nesse momento único e particular, através da figura da Ialorixá, se reatualizava uma lógica do saber de matriz africana — a mesma que cada um de nós, filhos desta tradição, teve a possibilidade de viver no momento em que foi recolhido e gestado no quarto de axé/ronkó/bakisse durante o período de nossas iniciações. Compreendi que, ao presenciarem essa atitude, os filhos-de-santo ali presentes puderam acessar e reviver seu próprio tempo de iaôs/bebês durante sua feitura de santo, se nutrir daquela lembrança e reforçar um campo de sustentabilidade subjetiva. Essa vivência, que chamei de “sutil comoção”, e que fez com que o tempo parasse um pouco para cada um de nós, certamente nos remeteu para momentos arcaicos de nossa própria relação mãe/bebê, e permitiu que em nossa “volta” estivéssemos mais fortes e integrados. Tal vivência, que não foi falada, mas intensamente vivida, é parte de uma lógica segundo a qual não se vive só pela racionalidade, mas também pelo sentir, pelo perceber, sobretudo pelo trocar. Entendo que o encanto, o mistério que se processa na interioridade das mães-criadeiras, que se explicita e traduz através de suas práticas de cuidado, acolhimento e limite adequado, que faz com que elas desenvolvam uma profunda capacidade de identificação por seus iaôs/fetos e seus iaôs/bebês, está na lógica que constitui a visão de mundo do saber do terreiro. Um saber trazido por homens e mulheres africanos, que foram a força de trabalho que construiu grande parte do país em que vivemos e que ainda hoje, depois de alguns séculos, é capaz de nos apresentar formas dignas de ser e viver. Entendo que essa forma de ser e viver que institui o cuidado, o respeito e a celebração da vida, dando qualidade de sagrado a processos do existir, como o nascer, o amadurecer e o morrer, ancora-se numa lógica de matriz africana que está viva nos terreiros. Essa lógica mostra que a vida só pode se processar a partir de uma cadeia ecológica de trocas, ressarcimentos, reparações, em que cada elemento do sistema, numa parceria inter-relacional, é não só necessário, mas fundamental para a manutenção do todo.
Para terminar, vamos ouvir e guardar os ensinamentos de Mãe Estelita, nos mostrando como compreende e vive o processo de feitura de iaô: “Eu acho que é assim. É um umbigo, não é? Meu e dele (o/a iaô). Ele porque recolhe, eu porque crio.” Em sua generosa e sutil sabedoria negro-brasileira, Mãe Estelita nos ensina que só é capaz de falar em “umbigo”, em “recolher” e em “criar” quem teve a capacidade de se dispor a ser uma interioridade placentária, uma rede de sustentação, um campo fértil e generoso para o desenvolvimento de sementes, potencialidades e subjetividades...