domingo, 25 de março de 2018

PELO AMOR OU PELA DOR


Nós tomamos lições da Vida e evoluímos interiormente “pelo amor ou pela dor”.



Esse termo é muitíssimo falado e conhecido no meio espiritualista, notadamente, tendo sua origem na cultura espírita-cristã aqui no Brasil.

Refletindo a respeito do assunto, gostaria de tecer alguns comentários a respeito dessa máxima e, também, propôr aos amigos alguns momentos de meditação a respeito, servindo-nos de um referencial um pouco mais psicológico do tema em questão.

Digo isso porque muitas vezes interpretamos esse ensinamento derivando nosso olhar para o fato de que muitas vezes nos recusamos, diante das mais variadas provações da vida, a aprendermos a lidar com elas nos utilizando das melhores “virtudes” de que podemos dispôr. Isso sempre nos leva a uma interpretação exclusivamente Moral da nossa maneira de agir ou re-agir a uma dada dificuldade (interna ou externa) e nos faz pensar em questões de “certo” ou “errado”. 

Contudo, em se tratando de uma abordagem humanística, a qual desejo compartilhar com os amigos, essa não é a maneira mais eficiente de se pensar a questão. O aspecto moral, muitas vezes, nos castra e nos conduz a um sentimento de culpa e de auto-punição por não sabermos lidar com aquilo que ainda não nos sentimos capazes ou do que ainda desconhecemos em nós. A interpretação puramente moral (muito comum nos ambientes religiosos, embora a sua validade), sempre nos limita a compreensão mais ampla acerca daquilo que envolva a realidade humana.

Entendemos, com isso, que lidar com as dificuldades servindo-nos da paciência, da tolerância, da compreensão, da disciplina, da fé e da oração, trabalhando ativamente e esperando com serenidade a resolução dos problemas, é passar pela experiência da provação e adquirir o aprendizado espiritual (amadurecimento) “pelo amor”. De outra forma, lidar com os obstáculos existenciais (sejam dificuldades externas a nós, ou nossas limitações interiores) por meio da revolta, da inconformação, da ansiedade descontrolada, do pessimismo, da agressividade, ou apelando para mecanismos doentios e externos para a fuga da realidade (cigarro, bebida, alimentação em excesso, gastos compulsivos, etc.) nos liga ao processo da “dor”, a qual advirá, sempre, mas também com a finalidade de nos trazer aprendizados, embora de maneira muito mais demorada e, invariavelmente, nos exigindo que refaçamos as lições e passemos pela prova por uma segunda vez (ou mais, até que consigamos passar por elas).

Enquanto nos demoramos, ignorando ou resistindo às necessidades de mudança na nossa maneira de olhar a nós mesmos e, consequentemente, a vida que nos cerca, colhemos os frutos, muitas vezes amargos, como pagamento da condição em que nos encontramos. Enfermidades variadas, crises financeiras, desemprego, dificuldades afetivas. Partes de sua causa (quando não, sua totalidade) estão enraizadas no desajuste e na inconsciência que detemos acerca de nossas próprias necessidades e potenciais íntimos, os quais permanecem, por longo tempo, imersos em nossa sombra psicológica.

Não quero que os amigos entendam a “sombra psicológica” como a presença do Mal, em nós. Não é isso. Embora seja verdade que todos nós, na condição de seres humanos, estamos ligados a essa dualidade existencial, carregando o Bem e o Mal em nosso íntimo. Independente se aceitamos isso ou não. Mas, a sombra psicológica não se refere a uma mera questão moral (bem ou mal). A sombra psicológica refere-se a tudo aquilo (de bom ou “não tão bom”) que permanece desconhecido ou reprimido em nós mesmos. Isso inclui conflitos, traumas, idéias ou desejos reprimidos, frustrações, lembranças desagradáveis, assim como, potenciais desconhecidos, qualidades não descobertas, faces da nossa personalidade ainda não exploradas, o nosso “vir-a-ser”.

Quando não conseguimos “jogar luz” sobre esses conteúdos que estão em nossa sombra, permanecemos ignorando-os. Entretanto, o fato de os ignorarmos não significa que eles não nos influenciam ou, até mesmo, determinam muito da nossa maneira de ser, de agir ou re-agir perante tudo aquilo que “mexe com a gente”. 

Os conteúdos psicológicos perturbadores que carregamos possuem cargas emocionais de grande força para orientar as nossas reações diante das situações e das pessoas com quem lidamos e, muitas das vezes, nos impelem na direção de adotarmos as piores entre as reações possíveis (pessimismo, tristeza, agressividade, compulsão, etc.), obscurecendo nossa capacidade de escolhermos as melhores (serenidade, compreensão, esperança, etc.). Naturalmente, essas reações são mecanismos espontâneos de “defesa” e possuem a finalidade de nos proteger do contato “direto” com faces da nossa realidade psicológica interior, perante as quais ainda nos encontramos imaturos para lidar.

E, enquanto não tornarmos esses conteúdos conscientes, trazendo-os, um a um, para o centro da nossa consciência, identificando-os, refletindo a respeito de suas origens e de que forma eles estão afetando nossa vida, eles permanecerão lá, no nosso “porão” interior, mas como forças ativas que ficam “empurrando” sem parar a nossa mente, cada vez com mais intensidade (e causando mais sofrimento). Por isso, não devemos nos olhar com repreensão e punição quando não conseguimos agir da melhor forma possível. Devemos, reconhecer nossas reações e compreender as que são “legais” e as que não nos fazem bem e, aos poucos, irmos substituindo-as por outras saudáveis. É um processo de re-educação e de auto-consciência. Sempre respeitando nossos limites, embora sem nos acomodarmos com eles (os limites). 

Mesmo os conteúdos positivos, enquanto permanecem na sombra, também causam estados perturbadores, pois eles estão, assim como os demais conteúdos psíquicos, impulsionando a sua liberação, o seu reconhecimento, mas como permanecem nessa zona obscura de nosso íntimo, eles geram estados de apreensão e de angústia, até que sejam, enfim, liberados pela consciência e possamos deles nos apropriar. Nesse ínterim, todos eles estão lá, chocando-se contra as “paredes” do nosso inconsciente, tentando subir à superfície, até o dia em que tomemos a decisão de os encarar, “iluminá-los” e diluí-los, para que sejam transformados em energias renovadoras para a nossa saúde emocional e espiritual. 

Sinceramente, não há outro caminho. Não há religião, mediunidade, caridade, apometria, trabalho espiritual, vela, passe, benzimento, banho de mar, crucifixo, patuá, descarrego, que possa resolver. Nossas crenças e nossa religiosidade são importantes e tem o papel comprovado de aliviar as tensões interiores, mas nunca o de resolvê-las. Trocar de carro, de casa, namorado(a), esposa(o), a marca do cigarro ou a dose de bebida, também não resolve. Nada. Tudo isso, embora digno de respeito, é infrutífero, possuindo resultados apenas superficiais. 

Somente quando há o esforço e a vontade de encarar a si mesmo, auto-analisar-se, e modificar o olhar sobre a sua realidade interior é que o indivíduo torna-se capaz de produzir a iluminação psicológica e espiritual. E, se sozinho não sou capaz de fazê-lo, nada mais justo que buscar apoio psicológico diretamente com um profissional, o qual pode ajudar a facilitar esse processo de auto-descoberta. Procurar um médico (do clínico geral ao psiquiatra) diante da enfermidade, sempre. Grupos de meditação (desde que sérios, como a Brahma Kumaris), de apoio terapêutico e a constelação familiar, também são válidos. Não há mal nenhum nisso. Psicólogo, analista, etc., não são “para loucos”. São, justamente, para “não ficar louco”.

O “amor ou a dor” nos levam para o amadurecimento, invariavelmente. Tudo isso porque eles são recursos que estão em nós por ação da Lei de Progresso (Lei da Evolução Espiritual), a qual se encontra “escrita” nas estruturas da nossa consciência. Não nos esqueçamos de que todas as Leis de Deus estão gravadas em nossa consciência. As Leis Divinas, em verdade, não estão em livros, em templos religiosos, em práticas formais da relação com Deus. Essas são expressões sociais, sempre respeitáveis, naturalmente, dessa relação que cada um deve, intimamente, estabelecer com o Sagrado, independente do local, da roupa, da situação ou de qualquer circunstância exterior em que estejamos. Por que, tudo que é externo nós podemos mascarar, driblar, “fazer parecer”. Mas, das Leis Divinas que estão insculpidas em nosso mundo interior, as quais nos ligam diretamente ao Divino, dessas nós não podemos fugir.

Não há destinação ou determinismo para continuarmos sendo sempre o que somos, com os mesmos hábitos, mesma conduta e a mesma maneira de nos colocarmos diante da vida. A vida nos impulsiona para, mesmo sem querermos, lidarmos com nossas facetas desajustadas afim de que as resolvamos e nos libertemos as algemas que criamos durante os períodos de inconsciência. Da mesma forma, enquanto fazemos esse processo de limpeza e reorganização interior, a Lei de Progresso nos possibilita identificar muitos traços positivos e saudáveis que também estão em nós (não são externos e nem fruto de nenhuma Graça Divina), mas até o momento não reconhecidos.

Jesus Cristo, quando afirma, em João 10:34 “Vós sois Deuses”, deixou gravado justamente que o nosso “vir-a-ser” está contido em nós mesmos. Não é o resultado de uma força externa, mas a conquista de um esforço interior que cada um deve empreender para o seu próprio amadurecimento e sua própria ascensão. Não temos como renunciar ou escapar a isso. Ninguém fará por nós. Em nenhum lugar, em nenhuma religião, com nada que seja externo a nós mesmos. Aliás, nem Ele o fez. Por isso estamos aqui, mais de 2.000 anos depois, ainda tentando acertarmos essa lição.


Que o Mestre Divino esteja conosco, sempre.


Fraternalmente, Ilé Yorimá*








DO USO (OU NÃO) DA MEDIUNIDADE


Não praticar a mediunidade, dentro do “compromisso” assumido no mundo espiritual, acarreta doenças e desajustes espirituais? 




Outro mito muito popular no imaginário das religiões mediúnicas (notadamente o Kardecismo e a Umbanda), assim como o mito da tal “Mediunidade Inconsciente”, conforme já o tratamos em outro texto, essa questão do não uso (ou do afastamento da prática) da mediunidade gera muitas dúvidas e conflitos de ordem psicológica em tantas pessoas que, apesar de desejarem uma maior aproximação com o meio religioso kardecista ou umbandista, veem-se tomadas por reticências e por resistências. Naturalmente, essa compreensão - um tanto castradora, diga-se de passagem - remete a uma certa sensação ou impressão de “prisão” que vincula o indivíduo, “ad eternum”, à necessidade de “praticar a caridade” por meio da mediunidade e servindo aos “espíritos, Guias e Mentores”. 


Então, se eu não aceitar para mim a prática mediúnica, eu terei problemas na minha vida? Ou, se após eu ter aceito a mediunidade, desejar, por circunstâncias as mais diversas (desencanto com a religião, mudança de religião, ir morar no exterior onde não há terreiros e centros espíritas, motivos profissionais, de saúde, familiares, etc.) afastar-me, mesmo que temporariamente, eu terei problemas? Minha vida vai “andar pra trás”? 


Absolutamente, não. 


Até por que precisamos pensar seguindo uma linha de coerência, não é? 


Como é que podemos dizer que o trabalho mediúnico é voltado para a tarefa de promover a Caridade, o Amor ao Próximo, o Bem Maior, o Consolo, a Esperança, a Orientação Saudável e Desinteressada, etc...e estarmos, nós mesmos, que nos dedicamos a esse “trabalho”, presos a algemas das quais não podemos nos libertar? Será que Espíritos de Luz, Mensageiros da Paz e do Amor, nos querem presos a eles, como escravos algemados a um “contrato assinado” em um momento que sequer podemos nos lembrar pois segundo dizem, seriam compromissos assumidos antes de reencarnarmos? 


Estarmos ligados a tarefa da Caridade significa participarmos e compartilharmos ativamente da prática dos princípios do Evangelho do Cristo. É “estarmos em Cristo”, conforme Ele mesmo houvera dito. E, então, estar em Cristo é estar preso, amarrado e destinado a sofrer, caso eu deseje outra coisa para a minha vida? Claro que não. 


Todos esses mitos surgiram no passado cada vez mais distante, em que havia muito pouco conhecimento acerca da Mediunidade, dos seus efeitos, dos proveitos que dela podemos usufruir, não só para contribuir com a ajuda ao próximo, mas também para nosso próprio benefício, em vista de como o exercício da mediunidade e da prática religiosa pode influir saudavelmente em nosso organismo físico e em nosso estado psicológico. Já existem vários estudos, inclusive, realizados por universidades do Brasil e do Exterior a respeito dos benefícios da prática mediúnica. 


Acredito que tudo evolui. Aquilo que no passado se encontrava na sombra da crendice, pela limitação do próprio conhecimento dos homens, vem, aos poucos, se iluminando, se esclarecendo, devido a evolução do conhecimento a respeito das questões espirituais. Isso ocorre tanto da parte do homens que passaram a estudar esses temas, mas também por parte dos próprios Mentores que trazem conhecimentos novos e elucidativos a respeito da mediunidade. 


Devemos entender que a Mediunidade não é um “dom”, assim como também não é um “estigma”. Não é uma graça que nos deixa melhor do que os outros, nem uma punição que nos rebaixa a condição de escravos do mundo espiritual. 


Portanto, devemos passar a compreender que a Mediunidade é uma Faculdade Mental. É um recurso extremamente valioso que temos à nossa disposição para ampliarmos, por meio da sua prática consciente e bem orientada, o nosso discernimento a respeito de nós mesmos, nosso auto-conhecimento, e também ampliarmos nossa visão a respeito da Vida e da realidade que nos cerca. Serve para deixarmos de olhar somente para nós mesmos, e passarmos a reconhecer os outros, as dores dos outros, as aflições dos outros, as doenças dos outros, as limitações dos outros e verificarmos que, assim como nós, existem outras pessoas que também sofrem, têm dúvidas, conflitos, limitações e que devemos nos ajudar, mutuamente, para que consigamos passar por nossas provas. A mediunidade nos ajuda a entendermos o quanto ligados e dependentes (não escravos) uns dos outros nós somos. 


Até por que nós só podemos ter uma atitude verdadeira de compaixão, caritativa, de companheirismo, etc., quando nos reconhecemos exatamente na mesma condição que os outros. Se nos julgamos acima, por que “somos médiuns”, nossa atitude será de orgulho somente ou, no mínimo, de indiferença. 


Outra Faculdade Mental que tem os mesmos efeitos que a Mediunidade, no que se refere ao auto-conhecimento, discernimento das conexões que temos com a vida, etc., é a Meditação. 

Então, a Mediunidade é um recurso que nos está à disposição para utilizarmos, caso seja de nossa escolha. Mas, e se eu não quiser me servir da Mediunidade? 


Bom, primeiro precisa se considerar o seguinte ponto. Você sente sinais da mediunidade em você? Já teve visões, sensações características, ouviu algo incomum, pressentiu acontecimentos, se sentiu doando energias para alguém ou algo do tipo, já se sentiu com a personalidade alterada? já foi, de fato, tomado para um impulso de comportamento alheio à sua vontade? Se já, com que frequência? Por que, também tem isso, muita gente acha que é médium por que alguém falou que ela era médium...mas a pessoa nunca sentiu nem um arrepio que fosse, nem de frio... 


Se a pessoa não utiliza o recurso da mediunidade, ocorre da mesma forma que uma pessoa que tem audição normal e coordenação motora adequada, mas que não se interessa por aprender música, por exemplo. Ela continua ouvindo e conseguindo controlar seus braços, mãos, pernas, sua voz, etc. Mas ela não é capaz de tocar um instrumento musical, de ouvir uma música e conseguir distinguir o som próprio de cada instrumento, não é capaz de perceber se o cantor desafinou, se tem um instrumento fora de compasso, etc. Ou seja, ela tem uma percepção mais ou menos limitada em relação a música. Ela entra em contato com a música, mas sua percepção fica limitada. Ela pode até ficar com dor de cabeça por causa da música que ela está ouvindo, mas como não aprimorou sua sensibilidade, ela não sabe dizer ao certo por que está com dor de cabeça ou porque quando ouve aquela música se sente mais leve, mais feliz, mais serena, etc. Da mesma forma, se ela não aprimora sua sensibilidade espiritual, por meio do exercício mediúnico, ela entra em contato com o mundo espiritual (por que nós nos encontramos envoltos pela realidade espiritual), sente a sua influência, positiva ou negativa, mas também não é capaz de distinguir aquilo que a está fazendo bem ou não. Ela entra num ambiente, se sente mal, mas não sabe dizer o porquê. Ela fala com uma pessoa, se sente bem, mas não sabe identificar, etc.. 


Há uma outra situação que é a de quando a pessoa tem uma sensibilidade já aguçada, seja porque ela floresceu na pessoa em dada fase da vida, ou por que a pessoa já vem exercitando a mediunidade e aí, por diversas situações possíveis, ela deseja se afastar desta prática. 


Nesse contexto, precisamos compreender que a mediunidade funciona em nós como algo dinâmico e pulsante. A mediunidade movimenta nossos conteúdos psicológicos, aguça nossa sensibilidade, amplia nossas percepções. É como uma correnteza que flui com intensidade e que precisa ser canalizada, caso a pessoa se decida a mudar de rumo. Dessa forma, é muito comum a pessoa com uma sensibilidade espiritual, mas fora da prática mediúnica, destinar suas energias para a área das artes, da pintura, da poesia, da música, da atividade esportiva, da medicina, da educação, da psicologia, da ação solidária, da Meditação, da Yoga, do Tai Chi, do Johrei, etc. 


Da mesma forma, quando transferem-se de religião, as pessoas podem aplicar a sua sensibilidade em atividades pertinentes que são executadas neste novo ambiente em que passam a frequentar. Participam de corais, de grupos de oração, de grupos de meditação, grupos de novenas, etc. A sensibilidade da pessoa irá encontrar uma forma de se expressar, mas, naturalmente, o canal mediúnico irá se “fechando”, pois é como se, podendo enxergar, a pessoa não o quisesse e insistisse em manter seus olhos vendados. Ou, podendo movimentar um braço, ela o amarrasse. Aos poucos, começa a ocorrer a anulação daquela função já adquirida, entretanto, no caso da mediunidade, sem o prejuízo para o organismo, conforme aconteceria com uma pessoa que se cegasse ou atrofiasse um braço. 


Quando tratamos do termo “compromisso mediúnico”, precisamos compreendê-lo como uma escolha consciente, tomada após um processo de amadurecimento da pessoa, a qual se decide por seguir um caminho de busca espiritual. E, naturalmente, como qualquer compromisso que assumimos, hoje, agora, nesta vida, conscientemente, nós não podemos simplesmente “virar as costas” quando mudamos de ideia, nos arrependemos, ou o desejamos, seja por qual motivo for. Mas isso não é um problema da mediunidade. É um problema da Vida. O que vai imperar nesse caso é a Lei da Consciência. As Leis de Deus estão inscritas na Consciência de cada um. Por mais que a pessoa tente disfarçar, lá no fundo tem uma “voz” que a lembra das escolhas que fez. 


Nós podemos simplesmente virar as costas para o nosso trabalho profissional e ir embora, por mais descontentes que estejamos? 


Nós podemos simplesmente virar as costas para a nossa família e “sair andando”, como se as pessoas que estão em nosso lar não fossem nada? 


Nós podemos abandonar um companheiro, um amigo, um(a) namorado(a), após termos nos vinculado a eles sem maiores comprometimentos? 


Nós podemos simplesmente virar as costas para a religião que escolhemos seguir, sem nos achar compromissados com nada nem ninguém? 


Qualquer pessoa que esteja de posse da sua saúde psicológica sabe que não podemos fazer isso. A não ser pessoas que estão doentes psicologicamente é que são capazes de virar as costas para os compromissos que assumem e simplesmente abandoná-los sem a menor “dor” na consciência. 


Todo compromisso assumido gera responsabilidade. Isso é da Lei da Vida. 


Toda Responsabilidade reconhecida se instala na Consciência de todo Ser Humano. 


Assim, quando o indivíduo deseje se desvincular da mediunidade, o que ele deve, primeiramente, é saber se conduzir éticamente. Exponha o seu desejo, comunique sua vontade e peça a licença para se afastar, com maturidade, para os responsáveis pela Casa que frequenta. Tenha em mente que os maiores laços que nós construímos na Vida, são os laços humanos, e não podemos nos desfazer das pessoas como se elas não tivessem significado nenhum. Esteja aberto para ser compreendido, ou não, pois da mesma forma que você, a pessoa do outro lado também é um ser humano e nem sempre toma a melhor atitude para todas as situações. Procure não falar mal do lugar que o acolheu, tão pouco das pessoas que seguiram ao seu lado, durante o tempo em que lá permaneceu. Não tome decisões guiado pela emoção do momento. Ore, reserve para si alguns dias para refletir a respeito. Veja se são justas a suas alegações e coerentes os seus motivos. 


Digo isso porque é da Lei, pela sua própria Consciência, que a pessoa que não sabe se conduzir e rompe seus laços com violência, com maledicência, com ingratidão, com abandono, etc., seja colocada novamente diante daqueles a quem se vinculou para resgatar com harmonia e maturidade os deveres que assumiu espontaneamente. E, ao se recusar e insistir nesta postura, a própria consciência da pessoa vai colocando-a em situação de sofrimento, de angústia, por que não se permite reconhecer que não soube comandar os seus passos pelos caminhos que deveria trilhar numa experiência de felicidade e de gratidão. 


E isso, como o dissemos, não é uma consequência da mediunidade ou uma punição dos Guias e Mentores de Luz. É uma consequência que vem pela nossa própria consciência, seja em qualquer lugar ou com qualquer compromisso sério que assumimos ao longo da nossa vida. Saiba que não é o fato de mudar de religião ou desejar se desvincular da mediunidade que o fará sofrer, mas é a maneira pela qual você se conduzirá neste processo. 


Gratidão sempre e que o Mestre Jesus nos abençoe!



Ilé Yorimá*







SURRA DE SANTO PODE?


Com frequência maior do que se imagina, chegam-nos pessoas preocupadas e amedrontadas, porque acreditam que, se não fizerem a vontade do guia e não atendê-lo nas oferendas solicitadas, suas vidas voltarão para trás. Outras informam que ficam doloridas após as incorporações e se recusam a fazer obrigação ao Orixá, para que isso não mais ocorra. 

Vamos por partes. Primeiro, há de se esclarecer algumas características do desenvolvimento mediúnico. Os chacras [centros de energia do corpo espiritual] do médium neófito giram em frequência muito abaixo daquela das entidades do plano astral que o assistirão. Temos de entender que toda incorporação, aos moldes umbandistas, passa pelo processo de desdobramento, ocasião em que o perispírito [corpo espiritual] do médium se coloca ou se expande ou torna-se mais desencaixado da matriz carnal, para que o espírito-guia se aproxime e impressione, pela sensibilidade de seu aparelho. 



Inicialmente, esse processo, se não bem conduzido em sua intensidade, dado que a frequência dos chacras da entidade é significativamente mais alta que a do médium, poderá provocar “violência” vibratória, que impactará em uma repercussão orgânica dolorida. Isso é verdadeiro. Essa violência não é do mentor, e sim do dirigente do terreiro, que não tem critério adequado, impondo incorporações anímicas [quando o transe é manifestado pela ação do inconsciente do próprio médium, não sendo gerado pela presença de um Espírito] mais fortes, como, por exemplo, nos casos de longas e extenuantes sessões de desenvolvimento, com o som dos atabaques ao máximo, sendo tocados ininterruptamente, por horas, fazendo os médiuns dançarem e rodopiarem. Nada contra a sonoridade de uma boa curimba, e sim contra os exageros. 



Agrava-se essa situação quando esses testes de resistência são feitos em altas horas da madrugada, sem hora para acabar. Não há musculatura que não fique dolorida no dia seguinte, e o coitado do guia acaba sendo o responsável pela dita “surra de santo”. 



[Há também que se considerar os excessos dos próprios médiuns, ou porque não estão devidamente concentrados e sintonizados no trabalho (distraídos com conversações inadequadas, risos de zombaria, intenções questionáveis, etc) ou porque que trazem consigo uma crença de que precisam fazer parecer autêntica a sua incorporação, para isso jogando-se e girando com violência contra os demais médiuns, tremendo-se exageradamente e dando grande trabalho para os cambones e demais orientadores, esquecendo-se de que o fenômeno espiritual deve ocorrer de maneira harmoniosa, quase que imperceptível para quem vê, embora de grande intensidade para quem o experimenta, pois trata-se de uma ligação que se estabelece num nível essencialmente mental-espiritual, gerando um estado orgânico característico (aumento da frequência da respiração, do batimento cardíaco, sensação de torpor em determinadas áreas do corpo, etc) mas que deve ser totalmente comandado pelo médium]. 

Ocorrem, também, casos de médiuns que, recém-iniciados nas consultas, não sabem dosar a intensidade da entrega no auxílio aos consulentes. Querendo ajudar a todos ao máximo, acabam por absorver para si em excesso as energias deletérias do atendido, e aí não há guia que consiga descarregar a contento, ao final dos trabalhos, sem que se aparelhos fiquem doloridos no dia seguinte. 



Com o exercício mediúnico continuado praticado durante as consultas, rapidamente o medianeiro aprende a dimensionar suas energias e não se deixa ser sugado demasiadamente. Obviamente que os elementos são acessórios importantes, como a volatização do álcool e a fumaça do charuto, que servem como potentes desintegradores dos miasmas e das negatividades dos consulentes (nos terreiros em que não se faz uso do álcool e do charuto, naturalmente, a defumação coletiva e os curiadores dispostos no congá determinam o mesmo efeito). 

Outra questão polêmica recorrente é a famosa “surra de santo”. Claro está que a Umbanda tem um método de persuasão mediúnica bastante peculiar para os potenciais médiuns, ainda resistentes em assumir suas tarefas. 

Certa vez, estávamos em um trabalho de cachoeira, e uma amiga espírita [kardecista] que tinha ido assistir, a convite, mostrou-se bastante cética em relação à intensidade das incorporações, duvidando de que o gestual e a dança fossem necessários, dizendo que aquilo era um condicionamento dos médiuns. 

Repentinamente, ela começou a ficar branca, com a mão geladíssima e a respiração ofegante. O couro retumbava nos tambores, e iniciou-se um ponto cantado de Iansã. Nossa amiga incrédula saiu a rodopiar, como se fosse o próprio raio do Orixá, e entrou na água dançando, em transe mediúnico inconsciente. 

Os cambones permaneceram atrás, para protegê-la de um possível escorregão. Com alto som e força nos pulmões, nossa amiga deu um grito: 
- Epahei! 

Em seguida, jogou o corpo para trás, voltando à sua consciência ordinária. Estupefata pelo fenômeno, com resignada, humildade, confessou ao guia-chefe que sempre tivera pânico de água e que fazia anos não entrava em rio ou mar. Pediu desculpas e disse que sabia muito pouco das coisas da Umbanda. 

O que não sabíamos é que nossa dançarina molhada estava sendo chamada por uma cabocla de Iansã para assumir seu compromisso com a Umbanda, isso depois de trinta e e cinco anos de Espiritismo. Tudo a seu tempo, e hoje essa pessoa, é laboriosa e dedicada médium em outro terreiro. 

Existe muita desinformação em relação à Umbanda e, infelizmente, muitas pessoas ganham dinheiro com a religião, aproveitando-se do medo de punição que colocam nos que entram em suas correntes, quando não fazem trabalhos de amarração, para que seus médiuns não se livrem tão fácil da famosa “surra de santo”, caso queiram abandoná-los ou trocar de terreiro. 

Dia desses, uma consulente passou mal na consulta e nos foi encaminhada, como sempre acontece nessas ocorrências. Na ocasião, estávamos vibrados mediunicamente com caboclo Ventania, e se deu o seguinte diálogo entre a consulente e ele: 

- Estou com sérios problemas de saúde. Após várias idas e vindas aos médicos e hospitais, uma bateria de exames, ressonâncias magnéticas, testes de esforço e checape geral, nada houve de conclusivo pela medicina até o momento. Sinto dores no corpo, repentina tontura, caio no chão, na rua, e me machuco. Estou cansada e não sei mais a quem pedir ajuda. Faz dois anos que abandonei a “Umbanda” por discordar dos sacrifícios animais e estou desconfiada de que esteja tomando “surra de santo”. Pergunto se isso é possível. 

- Minha filha, possível é, mas nada tem a ver com a Umbanda. Sendo a Umbanda uma força que nos dá vida, é inexplicável praticá-la como algo que a tira. O que está havendo com sua mediunidade é que determinados espíritos estão agarrados em seus chacras e, em determinado momento do dia, quando a senhora está perambulando em ambientes de baixa vibração como, por exemplo, nas calçadas próximas a aglomerações humanas, onde os pensamentos profanos e angustiados se cruzam, encontram eles força para “tomar” seu psiquismo e seus chacras, sem sua licença. 

- Como resolver isso, se eu não aceito voltar ao terreiro e fui ameaçada pelo babá, pois me disse que o santo não me largaria fácil e que eu iria apanhar e sofrer? 

- Seu livre-arbítrio nesse caso é soberano, como uma águia que voa acima dos patos. Uma ameaça, quando não encontra sintonia no medo, torna-se pueril e sem maiores efeitos, qual raio que não atinge a terra. Ao não conseguir se desligar da imantação magística a que está submetida, que se fortalece por encontrar receio em seu coração, acaba sendo carrasco de si mesma fortalecendo aquele que a quer submissa. Embora existam alguns objetos pessoais seu de uso ritual que ficaram no antigo terreiro, por si só são inócuos, “placebos” mágicos, se não encontrarem em seu proprietário ligação mental. Afaste o medo e confie no Alto, que estará a meio passo da libertação. 

- Eu posso pedir agô – liberdade – ao meu santo em outro terreiro? 

- A liberdade de consciência é um direito seu inalienável que só pertence a você, a mais ninguém; não requer permissão, seja de quem for, muito menos dos santos. Os terreiros, templos, centros, igrejas, ilês, são meras construções terrenas que servem para despertar a confiança faltante nas criaturas amedrontadas, diante do temor atávico alimentado pelo “igrejismo”, ao longo dos anos, de não conseguirem se religar ao sagrado sozinhas. Lembra-se de Jesus, que se “verticalizava” com o Pai a qualquer momento e que nunca disse fora da igreja não há salvação. Se não existe essa confiança dentro de si, avalie sete vezes setenta para quem confiará sua caminhada espiritual, pois, se a subida solitária é árdua, a descida a dois é facílima; o que cai nunca cai sozinho e se agarra nas escoras rumo ao abismo. 

- Estou frequentando o centro kardecista, mas os passes e as irradiações não estão surtindo efeito. Ao ir a uma cartomante, ela jogou as cartas e me falou tratar-se de “surra de santo”. Fui conversar com outra pessoa esotérica que joga búzios, e ele também confirmou na caída. Agora, como me convencerei de que meu problema de saúde não é de santo? Com aceitar ter que fazer obrigações pagas para acalmá-los? Estou desanimada e muito triste. Ajude-me! 

- Com todo respeito aos irmãos de Kardec, o mero mentalismo espiritista não surtirá efeito no processo magístico em que está envolvida. Isso não quer dizer que deva deixar de ir ao centro kardequiano. Na verdade, as diferenças são dos homens, e o magnetismo peculiar à Umbanda poderá ajudá-la, exclusivamente por seu compromisso cármico nessa encarnação, já que veio vibrada para ser “cavalo” de terreiro. Seu problema é mediúnico, uma vez que se encontra em uma indução intensa por obsessão endereçada contra sua pessoa, por meio da magia negativa. Não precisa pagar nada neste terreirinho e tenha mais persistência de que o mundo não vai cair em sua cabeça, nema senhora vai morrer dessa vez. Tranquilize-se e confie. Antes de andar pagando a este ou aquele quiromante, segure suas moedas e tenha mais paciência, aprenda a esperar. O imediatismo nas respostas e o pronto-alívio são ilusões. Se não der continuidade ao menos a sete encontros com palestra, ritual do fogo e passe nessa choupana, que não lhe cobrará nada, nem imporá nenhuma obrigação, a não ser sua presença semanal na sessão, não encontrará facilmente seu reequilíbrio, a não ser que volte para o abraço do urso, caloroso, mas que pode quebrar suas costelas. Entendeu, filha afoita? 

- Entendi, meu caboclo. Faz dois anos que estou à mercê disso, sete encontros só podem me fazer bem, pois o mal que vivo, maior do que se encontra, não pode ficar. Confio e me entrego a esse congá. 

- Vai com Oxalá, minha filha. Que todos os Orixás abençoem e que Xangô olhe para sua fronte alquebrada. Tenha fé, que tudo vai se resolver. 

Ao término dessa consulta, junto com o Caboclo Ventania, no Astral, estava uma falange de caboclos bugres, feiticeiros, comandada por caboclo Ubirajara Peito de Aço, que se preparava para a movimentação astral da noite. Pelo visto, a cobra ia fumar, e a coral piar a favor de nossa consulente, para ela não mais “apanhar de santo”. 

Corta língua, 
Corta mironga, 
Corta lingua de falador. 
Na sua espada não há embaraço. 
Chegou Ubirajara do Peito de Aço. 

Ele é caboclo, 
Ele é flecheiro, 
Bumba na calunga. 
É matador de feiticeiro. 
Bumba na calunga, 
Quando eu vou firmar meu ponto. 
Bumba na calunga, 
Eu vou firmar é lá na Angola, 
Bumba na calunga. 

Arreia capangueiros, 
Capangueiros da Jurema. 
Arreia capangueiros, 
Capangueiros Juremá.




Ilé Yorimá*




O PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM NA UMBANDA


Pensando a respeito do processo de ensino-aprendizagem, na cultura umbandista, gostaria de compor algumas linhas sobre o tema.



Diferentemente de um fato que ocorria no meio umbandista até poucas décadas atrás (até a década de 90), em que pouquíssima coisa havia sido registrada e transmitida utilizando-se do recurso do livro e, posteriormente, da internet, hoje, vemos uma grande proliferação de obras literárias (acadêmicas ou não) tratando especificamente da Umbanda, sem contar outras falando das demais religiões pertencentes à cultura afro-brasileira, assim como uma grande diversidade de sites e blogs na internet, nos quais também existem conteúdos e informações (embora muitas vezes repetidos ou plagiados) a respeito deste universo religioso.


Não pretendo julgar a validade ou a qualidade do conteúdo presente nestes livros ou na internet, pois, naturalmente, existem aqueles de valor considerável e aqueloutros que, de fato, não merecem nenhuma consideração, tamanha a pobreza de idéias, a quantidade de conceitos equivocados, visões de mundo distorcidas, etc. 


E nem preciso ir muito longe. Pegando um autor famoso no meio, Rubens Saraceni, cito 4 livros de sua autoria e de seu “preto-velho” Pai Benedito de Aruanda (que teria sido Dante Alighieri), "Código de Umbanda", "O Livro das Energias", "A Gênese Divina dos Orixás" e "O Código da Escrita Mágica Simbólica" (sem contar aqueles livros tratando das histórias de Exus, como o Guardião da Meia-Noite e outros).


Tais obras contém uma infinidade de erros, omissões, prolixidades e falhas de informação no que se refere:


  • História das religiões: dizer que o Judaísmo é a religião mais antiga do mundo, quando qualquer pessoa que tenha feito até o ensino médio sabe, ou deveria saber, que a religião mais antiga da humanidade hoje é o Hinduísmo; 
  • Falhas em conceitos sobre mediunidade: 1º o autor diz que NINGUÉM, em nenhuma religião, filosofia ou doutrina espiritual, jamais tinha tratado do campo vibratório do médium...acho que ele nunca leu André Luiz, que desde 1940 fala disso, sem contar Matta e Silva, escritor Umbandista, que já desde 1959 escrevera a respeito deste assunto. 2º ele afirma que os médiuns na Umbanda trabalham, em determinadas linhas, incorporados com seres de natureza “extra”-humana, como elementais e outros, pertencentes a dimensões distintas do plano espiritual humano. Outro erro crasso, porque o mecanismo mediúnico ocorre pela ligação mental entre seres de mesma natureza. Naturalmente, os seres que estão envolvidos no mecanismo mediúnico podem ser mais ou menos evoluídos uns que os outros, mas jamais pertencentes a naturezas diferentes; 
  • Erros científicos clamorosos: só pra citar alguns básicos, afirmar que a partícula nêutron tem carga positiva..ou, que “a noite as plantas absorvem gás carbônico e liberam oxigênio durante o dia”, ou ainda que “nosso ar é uma combinação de vários gases no qual predomina o oxigênio”...
Tudo isso contido em obras que se dizem de Teologia e Doutrina de Umbanda...já pensou uma pessoa que não é da Umbanda, mas tem conhecimento, e pega esses livros pra ler? O que ela vai pensar da nossa religião...


Estou citando esses “pequenos” exemplos de erros deste autor, não porque eu tenha nada contra ele, absolutamente. Somente porque ele figura entre os mais famosos no meio. Outros, que nem são famosos então...é de chorar.


Bom, isso a parte...quero enfatizar que o processo de ensino-aprendizagem na Umbanda está diretamente ligado à transmissão oral (oralitura) e a experimentação multissensorial (que não envolve somente o uso do intelecto, mas de outras funções e percepções psíquicas). Ou seja, nesta prática religiosa, o conhecimento é transferido na interação direta e pessoal entre Pai (Mãe)-de-Santo e Filho-de-Santo, a qual ocorre pelos ensinos que são ministrados durante o dia-a-dia dos trabalhos – antes, durante e após estes –, nos ritos especiais e nas atividades específicas de iniciação (as obrigações, preparações ou amacis, de acordo com o termo usado em cada casa) pelas quais os adeptos passam, ao longo do seu aprendizado mediúnico.


Ter contato com os objetos e elementos do culto. Sentir os pés descalços no chão. Ouvir o som dos cânticos e dos instrumentos. Orar em silêncio. Rezar em comunhão com o irmão de terreiro. Mãos dadas. Observar o multicolorido das roupas, fitas e velas. Sentir os aromas das ervas, das defumações e das flores do ambiente. Perceber-se em transe, tomado por uma energia fora de si-mesmo. 


Tudo isso compõe um processo de aprendizagem que envolve múltiplas sensações e percepções, ampliando a experiência psicológica e espiritual pertinente à Umbanda. Trata-se de um conhecimento experimental, de um saber-fazer que só pode ocorrer na prática e na experimentação direta e interessada nas giras, nos trabalhos espirituais de toda e qualquer natureza que se desenvolvem dentro do terreiro. Essa condição que é dada ao filho-de-santo, a de“estar presente”, é que colabora para a gradual construção de uma “compreensão intuitiva” a respeito da realidade espiritual e dos sentidos profundos que estão “velados”, ocultos, nos trabalhos espirituais.


Dessa forma, na Umbanda, a porta para o acesso ao conhecimento espiritual está em “sentir” e “viver” esta forma de religiosidade. Ou seja, a aprendizagem de maior valor para essa cultura religiosa pertence ao que vem “de dentro” do adepto e não, necessariamente, às formas externas de aquisição de conhecimento. Ao longo dos anos, a relação subjetiva, interna e particular, com as entidades espirituais e com o seu Mestre Espiritual (Pai/Mãe-de-Santo) implica em revelações que vão sendo abertas para o médium a pouco e pouco.


As ferramentas para a aquisição do Saber, na Umbanda, dentro desta perspectiva “desde de dentro” do médium são as intuições, as descobertas interiores, as revelações, a dedicação, o interesse pessoal e o dom (aqui entendido como a capacidade inata do indivíduo de captar e receber orientações diretas do mundo espiritual). Todos esses fatores remetem a compreensão de que o modo de aprender na Umbanda está ligado a uma tradição que é vivida dentro do terreiro, aprendida e repassada, principalmente por meio da memória e da oralidade. 


Falando da oralidade, quero dizer que a fluência do ensino é transmitido da “boca ao ouvido”. Da boca do Chefe de Terreiro ao ouvido do(s) médium(ns). Isso tem uma força simbólica muito grande, pois ouvir diretamente um conhecimento transmitido por aquele que tem o papel reconhecido como o de Mestre, vai muito além do que ler algo distante e descontextualizado daquela tradição na qual o médium está inserido.


Entretanto, a Umbanda não marginaliza a leitura como fonte de conhecimento. Não há uma oposição ao livro ou a leitura. O que acontece é a acomodação da cultura literária como sendo uma experiência de segundo plano, complementar, e não a experiência central para a transmissão do conhecimento. Essa experiência central, quero ressaltar, pertence ao campo da experiência pessoal e subjetiva, da transmissão oral entre Mestre e discípulo e da memória conservada ao longo das gerações dentro do terreiro. 


Devemos compreender que os livros cuja temática é a Umbanda, colaboram para trazer esse universo religioso para uma dimensão menos marginalizada em nossa sociedade (pois nossa sociedade atual valoriza mais a linguagem escrita do que outras formas de linguagem). Podemos ver que atualmente há um interesse crescente por parte de historiadores, antropólogos, cientistas da religião, psicólogos entre outros pesquisadores no mundo acadêmico, em estudar a Umbanda e divulgá-la como um fenômeno religioso válido e com uma cultura rica e saudável, ao contrário do estigma que fora criado sobre a Umbanda, taxando-a como uma seita esdrúxula, repleta de crendices e práticas perigosas para a saúde psiquiátrica das pessoas.


Contudo, os livros, os blogs (inclusive esse que você lê) e os sites tratam sempre de aspectos externos, genéricos e superficiais da Umbanda. Eles falam daquilo que “pode ser falado” abertamente. Por isso, o cuidado que o adepto sempre deve ter ao ler e analisar tais obras a respeito daquilo que elas trazem e ensinam, pois muitas das vezes os livros estão refletindo o pensamento próprio do seu autor dentro daquela tradição que é seguida por este e que, naturalmente, não cabem dentro da tradição que seguimos particularmente. Vale como um ponto de informação e reflexão, mas nunca como “pedra de toque”. 


Os livros (os que detém conteúdos coerentes, é claro) também nos ajudam a entender a Umbanda como um fenômeno religioso, compreendendo seu desenvolvimento histórico e social, ensejando que tenhamos uma visão crítica/analítica de nossa religião, reforçando nossa identidade cultural-religiosa e sabendo situá-la perante a sociedade em que estamos inseridos.


Assim, enfatizo que as obras umbandistas (e espiritualistas em geral) são um recurso valioso para o médium e demais adeptos, mas que têm seu lugar bem definido e delineado na prática Umbandista.


Os conhecimentos centrais e profundos só são acessados pela experiência na prática cotidiana, no “estar presente” e interessado no terreiro, e pela transmissão oral, de “boca a ouvido” entre Pai(Mãe)-de-Santo e Filho-de-Santo...entre Mestre e discípulo.


Saravá a todos!



Ilé Yorimá*





ANCESTRALIDADE


Na Umbanda, há um termo que corresponde diretamente a um referencial ético, norteador, nas relações humanas vividas e experimentadas dentro do terreiro: a ancestralidade.


Muito falamos sobre a ancestralidade no que se refere às origens histórico-culturais que serviram como base, ao longo do desenvolvimento da nossa sociedade, para o surgimento da Umbanda, tornando-a um fenômeno religioso autenticamente brasileiro. Falamos das etnias que serviram de tronco para a nossa identidade cultural, quais sejam os indígenas brasileiros, os negros africanos e os europeus.


Sabemos que a Umbanda herda da miscigenação e do amálgama de determinados aspectos das práticas religiosas de cada uma dessas matrizes formadoras o conteúdo que irá constituir seu imaginário, seus símbolos religiosos, sua cosmovisão e sua maneira de relacionar-se com a sociedade como um todo.


Mas, nossa idéia aqui é a de tratarmos, não do aspecto sócio-cultural da Umbanda, mas sim da inter-relação humana que vige dentro do templo religioso umbandista lastreado pelo princípio da ancestralidade.


Toda Casa de Umbanda tem um iniciador. Alguém, homem ou mulher, escolhido pelos Orixás, Guias e Protetores, que passa a carregar uma "missão" que é a de servir-lhes de intermediário, para que possam ser manifestadas as individualidades do mundo espiritual, a Aruanda, com o objetivo de trazerem esclarecimento e, principalmente, auxílio e conforto aos necessitados e aflitos.


Imaginando-nos há décadas atrás, sem ir muito longe, podíamos ver uma sociedade em que o desconhecimento a respeito dos fenômenos mediúnicos e espirituais era muito grande. A religião dominante, como ainda o é, o catolicismo, não comporta, pelo menos para a massa leiga, uma orientação aberta e de compreensão para com esse tipo de manifestação que é tão presente em nosso meio social. O transe, a manifestação mediúnica, eram sempre vistos como sendo um traço de loucura ou de possessão demoníaca, ou seja, como algo doentio.


Lembremos dos fundadores de nossos templos, nesse passado, em que a maioria deles nascia em meio a uma família humilde e ignorante (no sentido exato da palavra, desconhecedora) a respeito da sua condição de médiuns. Imaginemos o quanto essas manifestações trouxeram de angústia e de sofrimento para eles, por verem-se no meio de uma sociedade que não os compreendia e os via como doentes ou, pior, assediados pelo demônio.


São essas pessoas, em meio a tais adversidades, que vão conduzir as suas vidas aceitando a condição de compromisso para com o mundo espiritual, por meio de seus mentores e demais espíritos trabalhadores que o acompanham,  servindo como pontes entre a realidade da Aruanda Maior e a nossa vida terrena. Tudo isso para que o objetivo de ajuda mútua, envolvendo os habitantes dos dois "lados" da vida, possa se concretizar. Assumem as suas "missões", iniciam-se na prática mediunista de Umbanda, aceitam o seu caminho, cheio de flores e de espinhos, como seareiros das Leis de Umbanda e, com o passar do tempo e apesar de tantas vicissitudes, prosseguem e fundam suas tendas, terreiros, choupanas, centros, templos...


Enfim, são individualidades espirituais que se encarnam neste mundo trazendo compromissos e assumindo responsabilidades profundas, na condução de comunidades inteiras, zelando, junto de seus mentores, pelo andamento e pelo progresso interior de tantos quantos façam parte do grupamento de seguidores e filhos-de-santo de seus templos. Tornam-se referências ético-morais, mesmo sem o perceber, destas comunidades.


Assim, surgem os Templos de Umbanda que se espalham por todo o nosso país. Aqueles que estão estruturados por um trabalho sólido de atendimento e acolhimento das pessoas que o buscam, com o tempo, constróem em torno de si, uma comunidade fiel que o segue e apóia, tornando-se devota dos Orixás que são cultuados nestas Casas, bem como das entidades espirituais que "baixam" nesses terreiros, trazendo esperança, conforto e caridade para todos os filhos-de-fé.


O grupo de médiuns, a corrente mediúnica, que vai constituindo a força de trabalho destas casas, é formado por indivíduos com histórias e momentos diversos, conforme a realidade vivenciada por cada um. O processo de inter-relação entre as pessoas é enriquecido pelo diálogo, uma vez que a característica fundamental da Umbanda é a chamada "oralitura", ou seja, a transmissão oral do conhecimento e da história espiritual pertinente a cada casa de Umbanda é feita primordialmente pelo diálogo, pela palavra "falada", pela conversa com os mais velhos, pelo ensino que vem da preleção ditada pelo dirigente de cada templo.


Ao longo da história do terreiro, são construídas memórias, conforme as pessoas vivenciam as mais diversas formas da vida espiritual dentro do templo umbandista, seja no dia-a-dia das giras, nas ocasiões de festa e comemorações, nos ritos de iniciação, nos mutirões de limpeza e organização em prol da casa.


Dessa forma, antes de entrarmos no templo de Umbanda em que hoje nos encontramos, devemos lembrar que muitos outros já passaram por lá antes de nós, carregando esperanças, memórias, histórias, conhecimentos, aprendizados, felicidades, frustrações, alegrias, tristezas, realizações...vivências profundas, enfim, tornando-as ligadas àquele ambiente espiritual. Não são só os nossos Guias e Protetores que estão ligados às correntes espirituais de nosso terreiro. Também nós, aos poucos, vamos nos integrando naquela realidade espiritual e, conforme avançamos na história do templo, nosso sentimento de fé, de respeito e de carinho, também nos tornam parte daquele mundo de luz. Não à toa, nossos irmãos de terreiro, mais velhos, quando desencarnam, passam também a fazer parte das correntes espirituais da casa. E, em alguns casos, ao passar dos anos, chegam inclusive a integrar-se como espíritos trabalhadores da casa. Isso é possível,  embora dependa muito da condição espiritual de cada um, afinal, como disse Jesus: "Porque, onde estiver o teu coração, ali estará o teu tesouro".


Embora não seja possível fazermos uma relação direta e proporcional entre tempo e conhecimento, pois nem sempre o fato de realizarmos durante muito tempo alguma coisa, signifique que o estejamos fazendo da maneira correta ou com a qualidade devida, cabe-nos lembrar aqui que, na religião de Umbanda, o papel do mais velho, no caminho da iniciação espiritual da Umbanda é muito importante. 


Os exemplos do mais velho, a sua conduta, são diretamente observados e tendem a ser repetidos pelo médium mais novo. São os mais velhos que lastreiam e detém as memórias que podem ser transmitidas aos mais novos, fazendo com que, tal qual o Mestre Nazareno o fez, partilhando os pães e os peixes, o coração de cada seguidor também se preencha dessas recordações felizes, assim como dos conhecimentos fundamentais para o crescimento espiritual dos neófitos dentro do templo. Quando isso não ocorre, chega-se ao risco de fazer com que se esmoreça a fé, com que a responsabilidade dos papéis se dissolva, com que se perca o referencial e os valores que devem ser cultivados e ensinados, pelo exemplo, insistimos, dentro do ambiente religioso. Isso tudo por que o fortalecimento da fé e do significado espiritual precisa da experiência com o outro, por meio da partilha. Esse é o princípio da Comunhão, a qual deve existir entre os membros da corrente mediúnica, entre os filhos-de-santo, entre os filhos-de-fé.


Portanto, segundo a nossa humilde e limitada visão, devemos sempre lembrar que, antes de olharmos para as coisas e as pessoas que estão inseridas no templo de Umbanda ao qual nos vinculamos, estabelecendo críticas e exigindo mudanças, devemos sempre nos lembrar de que ali há uma história viva, na qual cada um de nós se insere, na medida do papel e das responsabilidades atribuídas a cada qual. Pessoas existem e existiram ali que construíram seu espaço e sua história espiritual naquele templo, e nós devemos respeitar tudo isso, mesmo que diante de dúvidas ou da impossibilidade de compreendermos totalmente determinadas questões, justamente devido à nossa inexperiência...são os passos que ainda não demos pelo caminho que outros, à nossa frente, já caminharam.


Lembremos da Ancestralidade que originou e sustenta a tradição de Umbanda que seguimos em nosso templo e não nos esqueçamos, em nossas orações, dentro e fora do nosso terreiro, de pedirmos a benção e a cobertura desses irmãos mais velhos que nos antecederam, junto de seus Guias e Mentores de Luz, nesta etapa da jornada espiritual.


Assim, peço a benção aos mais velhos e dirijo meu  preito de respeito aos mais novos, como eu.


Saravá a todos!



Ilé Yorimá*



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