Nós tomamos lições da Vida e evoluímos interiormente “pelo amor ou pela dor”.
Esse termo é muitíssimo falado e conhecido no meio
espiritualista, notadamente, tendo sua origem na cultura espírita-cristã aqui
no Brasil.
Refletindo a respeito do assunto, gostaria de tecer alguns
comentários a respeito dessa máxima e, também, propôr aos amigos alguns
momentos de meditação a respeito, servindo-nos de um referencial um pouco mais
psicológico do tema em questão.
Digo isso porque muitas vezes interpretamos esse
ensinamento derivando nosso olhar para o fato de que muitas vezes nos
recusamos, diante das mais variadas provações da vida, a aprendermos a lidar
com elas nos utilizando das melhores “virtudes” de que podemos dispôr. Isso
sempre nos leva a uma interpretação exclusivamente Moral da nossa maneira de
agir ou re-agir a uma dada dificuldade (interna ou externa) e nos faz pensar em
questões de “certo” ou “errado”.
Contudo, em se tratando de uma abordagem humanística, a
qual desejo compartilhar com os amigos, essa não é a maneira mais eficiente de
se pensar a questão. O aspecto moral, muitas vezes, nos castra e nos conduz a
um sentimento de culpa e de auto-punição por não sabermos lidar com aquilo que
ainda não nos sentimos capazes ou do que ainda desconhecemos em nós. A
interpretação puramente moral (muito comum nos ambientes religiosos, embora a
sua validade), sempre nos limita a compreensão mais ampla acerca daquilo que
envolva a realidade humana.
Entendemos, com isso, que lidar com as dificuldades
servindo-nos da paciência, da tolerância, da compreensão, da disciplina, da fé
e da oração, trabalhando ativamente e esperando com serenidade a resolução dos
problemas, é passar pela experiência da provação e adquirir o aprendizado
espiritual (amadurecimento) “pelo amor”. De outra forma, lidar com os obstáculos
existenciais (sejam dificuldades externas a nós, ou nossas limitações
interiores) por meio da revolta, da inconformação, da ansiedade descontrolada,
do pessimismo, da agressividade, ou apelando para mecanismos doentios e
externos para a fuga da realidade (cigarro, bebida, alimentação em excesso,
gastos compulsivos, etc.) nos liga ao processo da “dor”, a qual advirá, sempre,
mas também com a finalidade de nos trazer aprendizados, embora de maneira muito
mais demorada e, invariavelmente, nos exigindo que refaçamos as lições e
passemos pela prova por uma segunda vez (ou mais, até que consigamos passar por
elas).
Enquanto nos demoramos, ignorando ou resistindo às
necessidades de mudança na nossa maneira de olhar a nós mesmos e,
consequentemente, a vida que nos cerca, colhemos os frutos, muitas vezes
amargos, como pagamento da condição em que nos encontramos. Enfermidades
variadas, crises financeiras, desemprego, dificuldades afetivas. Partes de sua
causa (quando não, sua totalidade) estão enraizadas no desajuste e na
inconsciência que detemos acerca de nossas próprias necessidades e potenciais
íntimos, os quais permanecem, por longo tempo, imersos em nossa sombra
psicológica.
Não quero que os amigos entendam a “sombra psicológica”
como a presença do Mal, em nós. Não é isso. Embora seja verdade que todos nós,
na condição de seres humanos, estamos ligados a essa dualidade existencial,
carregando o Bem e o Mal em nosso íntimo. Independente se aceitamos isso ou
não. Mas, a sombra psicológica não se refere a uma mera questão moral (bem ou
mal). A sombra psicológica refere-se a tudo aquilo (de bom ou “não tão bom”)
que permanece desconhecido ou reprimido em nós mesmos. Isso inclui conflitos,
traumas, idéias ou desejos reprimidos, frustrações, lembranças desagradáveis,
assim como, potenciais desconhecidos, qualidades não descobertas, faces da
nossa personalidade ainda não exploradas, o nosso “vir-a-ser”.
Quando não conseguimos “jogar luz” sobre esses conteúdos
que estão em nossa sombra, permanecemos ignorando-os. Entretanto, o fato de os
ignorarmos não significa que eles não nos influenciam ou, até mesmo, determinam
muito da nossa maneira de ser, de agir ou re-agir perante tudo aquilo que “mexe
com a gente”.
Os conteúdos psicológicos perturbadores que carregamos
possuem cargas emocionais de grande força para orientar as nossas reações
diante das situações e das pessoas com quem lidamos e, muitas das vezes, nos
impelem na direção de adotarmos as piores entre as reações possíveis
(pessimismo, tristeza, agressividade, compulsão, etc.), obscurecendo nossa
capacidade de escolhermos as melhores (serenidade, compreensão, esperança,
etc.). Naturalmente, essas reações são mecanismos espontâneos de “defesa” e
possuem a finalidade de nos proteger do contato “direto” com faces da nossa
realidade psicológica interior, perante as quais ainda nos encontramos imaturos
para lidar.
E, enquanto não tornarmos esses conteúdos conscientes,
trazendo-os, um a um, para o centro da nossa consciência, identificando-os,
refletindo a respeito de suas origens e de que forma eles estão afetando nossa
vida, eles permanecerão lá, no nosso “porão” interior, mas como forças ativas
que ficam “empurrando” sem parar a nossa mente, cada vez com mais intensidade
(e causando mais sofrimento). Por isso, não devemos nos olhar com repreensão e
punição quando não conseguimos agir da melhor forma possível. Devemos,
reconhecer nossas reações e compreender as que são “legais” e as que não nos
fazem bem e, aos poucos, irmos substituindo-as por outras saudáveis. É um
processo de re-educação e de auto-consciência. Sempre respeitando nossos
limites, embora sem nos acomodarmos com eles (os limites).
Mesmo os conteúdos positivos, enquanto permanecem na
sombra, também causam estados perturbadores, pois eles estão, assim como os
demais conteúdos psíquicos, impulsionando a sua liberação, o seu
reconhecimento, mas como permanecem nessa zona obscura de nosso íntimo, eles
geram estados de apreensão e de angústia, até que sejam, enfim, liberados pela
consciência e possamos deles nos apropriar. Nesse ínterim, todos eles estão lá,
chocando-se contra as “paredes” do nosso inconsciente, tentando subir à
superfície, até o dia em que tomemos a decisão de os encarar, “iluminá-los” e
diluí-los, para que sejam transformados em energias renovadoras para a nossa
saúde emocional e espiritual.
Sinceramente, não há outro caminho. Não há religião,
mediunidade, caridade, apometria, trabalho espiritual, vela, passe, benzimento,
banho de mar, crucifixo, patuá, descarrego, que possa resolver. Nossas crenças
e nossa religiosidade são importantes e tem o papel comprovado de aliviar as
tensões interiores, mas nunca o de resolvê-las. Trocar de carro, de casa,
namorado(a), esposa(o), a marca do cigarro ou a dose de bebida, também não
resolve. Nada. Tudo isso, embora digno de respeito, é infrutífero, possuindo
resultados apenas superficiais.
Somente quando há o esforço e a vontade de encarar a si
mesmo, auto-analisar-se, e modificar o olhar sobre a sua realidade interior é
que o indivíduo torna-se capaz de produzir a iluminação psicológica e
espiritual. E, se sozinho não sou capaz de fazê-lo, nada mais justo que buscar
apoio psicológico diretamente com um profissional, o qual pode ajudar a
facilitar esse processo de auto-descoberta. Procurar um médico (do clínico
geral ao psiquiatra) diante da enfermidade, sempre. Grupos de meditação (desde
que sérios, como a Brahma Kumaris), de apoio terapêutico e a constelação
familiar, também são válidos. Não há mal nenhum nisso. Psicólogo, analista,
etc., não são “para loucos”. São, justamente, para “não ficar louco”.
O “amor ou a dor” nos levam para o amadurecimento,
invariavelmente. Tudo isso porque eles são recursos que estão em nós por ação
da Lei de Progresso (Lei da Evolução Espiritual), a qual se encontra “escrita”
nas estruturas da nossa consciência. Não nos esqueçamos de que todas as Leis de
Deus estão gravadas em nossa consciência. As Leis Divinas, em verdade, não
estão em livros, em templos religiosos, em práticas formais da relação com
Deus. Essas são expressões sociais, sempre respeitáveis, naturalmente, dessa
relação que cada um deve, intimamente, estabelecer com o Sagrado, independente do
local, da roupa, da situação ou de qualquer circunstância exterior em que
estejamos. Por que, tudo que é externo nós podemos mascarar, driblar, “fazer
parecer”. Mas, das Leis Divinas que estão insculpidas em nosso mundo interior,
as quais nos ligam diretamente ao Divino, dessas nós não podemos fugir.
Não há destinação ou determinismo para continuarmos sendo
sempre o que somos, com os mesmos hábitos, mesma conduta e a mesma maneira de
nos colocarmos diante da vida. A vida nos impulsiona para, mesmo sem querermos,
lidarmos com nossas facetas desajustadas afim de que as resolvamos e nos
libertemos as algemas que criamos durante os períodos de inconsciência. Da
mesma forma, enquanto fazemos esse processo de limpeza e reorganização
interior, a Lei de Progresso nos possibilita identificar muitos traços
positivos e saudáveis que também estão em nós (não são externos e nem fruto de
nenhuma Graça Divina), mas até o momento não reconhecidos.
Jesus Cristo, quando afirma, em João 10:34 “Vós sois
Deuses”, deixou gravado justamente que o nosso “vir-a-ser” está contido em nós
mesmos. Não é o resultado de uma força externa, mas a conquista de um esforço
interior que cada um deve empreender para o seu próprio amadurecimento e sua
própria ascensão. Não temos como renunciar ou escapar a isso. Ninguém fará por
nós. Em nenhum lugar, em nenhuma religião, com nada que seja externo a nós
mesmos. Aliás, nem Ele o fez. Por isso estamos aqui, mais de 2.000 anos depois,
ainda tentando acertarmos essa lição.
Que o Mestre Divino esteja conosco, sempre.
Fraternalmente, Ilé Yorimá*