quarta-feira, 21 de junho de 2017

ORIXÁ IANSÃ-OIÁ

A IRA DA MULHER BÚFALO


Ogun foi um dia caçar na floresta.
Ele ficou na espreita e viu um búfalo vindo em sua direção.
Ogun avaliou logo à distância que os separava e preparou-se para matar o animal com a sua espada.
Mas viu o búfalo parar e, de repente, baixar a cabeça e despir-se de sua pele.
Da pele saiu uma linda mulher.
Era IANSÃ, vestida com elegância, coberta com panos, um turbante luxuoso amarrado à cabeça e ornada de colares e braceletes.
IANSÃ enrolou sua pele e seus chifres, fez uma trouxa e escondeu num formigueiro.
Partiu, em seguida, num passo leve, em direção ao mercado da cidade, sem desconfiar que Ogum tinha visto tudo.
Assim que IANSÃ partiu, Ogun apoderou-se da trouxa, foi para casa, guardou-a no celeiro de milho e seguiu, também, para o mercado.
Lá, ele encontrou a bela mulher e cortejou-a.
Ogun pediu-a em casamento.
IANSÃ apenas sorriu e recusou.
Ogun insistiu e disse-lhe que a esperaria.
Ele não duvidava de que ela aceitasse sua proposta.
IANSÃ voltou à floresta e não encontrou seu chifre nem sua pele.
IANSÃ voltou ao mercado, já vazio, e viu Ogun que a esperava.
Ela perguntou-lhe o que ele havia feito daquilo que ela deixara no formigueiro.
Ogun fingiu inocência e declarou que nada tinha a ver, nem com o formigueiro nem com o que estava nele.
IANSÃ não se deixou enganar e disse-lhe:
Eu sei que escondeu minha pele e meu chifre.
Eu sei que você se negará a me revelar o esconderijo.
Disse a Ogun que se casaria com ele e viveria em sua casa, mas, mediante certas regras de conduta para com ela.
Estas regras devem ser respeitadas, também, pelas pessoas da casa.
Ninguém poderá dizer a IANSÃ: Você é um animal!
Ninguém poderá utilizar cascas de dendê para fazer fogo.
Ninguém poderá rolar um pilão pelo chão da casa.
Ogun respondeu que havia compreendido e levou IANSÃ.
Chegando em casa, Ogun reuniu suas outras mulheres e explicou-lhes como deveriam comportar-se.
Ficara claro para todos que ninguém deveria discutir com IANSÃ, nem insultá-la.
A vida organizou-se.
Ogun saía para caçar ou cultivar o campo.
IANSÃ, em vão, procurava sua pele e seus chifres.
Ela deu à luz uma criança, depois uma segunda e uma terceira.
Ela deu à luz a nove crianças.
Mas as mulheres viviam enciumadas da beleza de IANSÃ.
Cada vez mais enciumadas e hostis, elas decidiram desvendar o mistério da origem de IANSÃ.
Uma delas conseguiu embriagar Ogun com vinho de palma.
Ogun não pôde mais controlar suas palavras e revelou o segredo.
Contou que IANSÃ era, na realidade, um animal.
Que sua pele e seus chifres estavam escondidos no celeiro de milho.
Ogun recomendou-lhes ainda: Sobretudo não procurem vê-los, pois isto a amedrontará.
Não lhes digam jamais que é um animal.
Depois disso, logo que Ogun saía para o campo, as mulheres insultavam IANSÃ:
-Você é um animal! Você é um animal!!
Elas cantavam enquanto faziam os trabalhos da casa:
-Coma e beba, pode exibir-se, mas sua pele está no celeiro de milho!
Um dia, todas as mulheres saíram para o mercado.
IANSÃ aproveitou-se e correu para o celeiro.
Abriu a porta e, bem no fundo, sob grandes espigas de milho, encontrou sua pele e seus chifres.
Ela os vestiu novamente e se sacudiu com energia.
Cada parte do seu corpo retomou exatamente seu lugar dentro da pele.
Logo que as mulheres chegaram do mercado, ela saiu bufando.
Foi um tremendo massacre, pelo qual passaram todas.
Com grandes chifradas IANSÃ rasgou-lhes a barriga, pisou sobre os corpos e rodou-os no ar.
IANSÃ poupou seus filhos que a seguiam chorando e dizendo:
Nossa mãe, nossa mãe! É você mesma?
Nossa mãe, nossa mãe! Que você vai fazer?
Nossa mãe, nossa mãe! Que será de nós?
O búfalo os consolou, roçando seu corpo carinhosamente no deles e dizendo-lhes:
-Eu vou voltar para a floresta; lá não é bom lugar para vocês.
Mas, vou lhes deixar uma lembrança.
Retirou seus chifres, entregou-lhes e continuou:
Quando qualquer perigo lhes ameaçar, quando vocês precisarem dos meus conselhos, esfreguem estes chifres um no outro. Em qualquer lugar que vocês estiverem, em qualquer lugar que eu estiver, escutarei suas queixas e virei socorrê-los.
Eis por que dois chifres de búfalo estão sempre no altar de IANSÃ.

ABUSO

Orixalá sofre frequentemente abusos de sua nora IANSÃ e de sua própria mulher Iemanjá, que o enganou com um orixá de idade superior Orunmilá, e teve uma filha Oxum.
Esta filha de criação se tornou a favorita e a protegida, cozinhando e lavando para ele.

ADOÇÃO

Os Ibejis são filhos paridos por IANSÃ, mas abandonados por ela, que os jogou nas águas. Foram abraçados e criados por Oxum como se fossem seus próprios filhos.
Doravante, os Ibejis passam a ser saudados em rituais específicos de Oxum e, nos grandes sacrifícios dedicados à deusa, também recebem oferendas.

 ALTERNATIVA PERIGOSA

Logunedé, o menino caçador, andava pelos matos quando um certo dia, passando pela beira do rio, ele viu no meio do rio um palácio muito bonito.
Voltou para sua cidade, relatou a beleza deste palácio e sua vontade de ir até lá.
Disseram a ele que era o palácio de Oxum, Lugar em que nenhum homem punha os pés.
Passou-se o tempo e Logunedé não encontrava um meio de ir até lá.
Um certo dia, encontrou sua mãe de criação, IANSÃ, que lhe confirmou que no palácio de Oxum nenhum homem punha os pés e ele só conseguiria entrar se vestindo como mulher.
Logunedé fascinado e obcecado pelo palácio pediu a IANSÃ que lhe arrumasse os trajes adequados. Depois de arrumado, pegou sua jangada e se pôs no rio a caminho do palácio. 
Pediu permissão à dona do palácio para sua entrada.

Abriram-se os portões e Logunedé entrou e no meio das mulheres Oxum reconheceu seu filho.
Disse que a partir daquele dia Logunedé usaria saia, que lhe daria o direito de reinar ao seu lado.

 AMOR E ÓDIO

Xangô seduz Oxum, raptando-a do palácio de seu pai.
Outras lendas dizem que Xangô tomo-a de Ogum, mas que eles mantiveram uma relação esporádica como amantes.
IANSÃ foi mulher de OGUM, mas foi embora com Xangô.
Oxum seduziu IANSÃ, mas logo abandonou-a e temos finalmente a versão de uma relação entre Ogum e Odé, que apesar disto continuaram suas vidas solitárias na floresta.
Iemanjá casou com Orixalá, mas o traiu com orunmilá.
Xangô casou com IANSÃ, embora ele detestasse Egum e ela detestasse carneiro.

 AXEXÊ

Vivia em terras de keto um caçador chamado Odulecê, era o líder de todos os caçadores, ele tomou por sua filha uma menina nascida em Irá, que por seus modos espertos e ligeiros era conhecida por OIÁ.
OIÁ tornou-se logo a predileta do velho caçador, conquistando um lugar de destaque naquele povo.
Mas um dia a morte levou Odulacê, deixando OIÁ muito triste.
A jovem pensou numa forma de homenagear o seu pai adotivo, reuniu todos os instrumentos de caça de Odulacê e enrolou-os num pano.
Também preparou todas as iguarias que ele tanto gostava de saborear.
Dançou e cantou por sete dias, espalhando por toda parte, com seu vento, o seu canto, fazendo com que se reunissem no local todos os caçadores da terra.
OIÁ embrenhou-se mata adentro e depositou ao pé de uma árvore sagrada os pertences de Odulacê.
Olorun, que tudo via, emocionou-se com o gesto de OIÁ e deu-lhe o poder de ser a guia dos mortos no caminho do Orum.
Transformou Odulacê em orixá e OIÁ na Mãe dos espaços dos espíritos.
Desde então todo aquele que morre tem seu espírito levado ao Orum por OIÁ.
Antes, porém, deve ser homenageado por seus entes queridos, numa festa com comidas, canto e danças.

 CABAÇAS

 IANSÃ, a primeira esposa de Xangô, teria ido, a seu mando, a um reino vizinho buscar 3 cabaças que estava com Obaluaiê.
Foi dito a ela que não abrisse estas cabaças, as quais ela deveria trazer de volta a Xangô.
IANSÃ foi e lá Obaluaiê recomendou mais uma vez que não deixasse as cabaças caírem e quebrarem e, se isto acontecesse, que ela não olhasse e fosse embora.
IANSÃ ia muito apressada e não agüentava mais segurar o segredo.
Um pouco mais à frente quebrou a primeira cabaça, desrespeitando a vontade de Obaluaiê.
Saíram de dentro da cabaça os ventos que a levou para o céus.
Quando terminaram os ventos, IANSÃ voltou e quebrou a segunda cabaça.
Da segunda cabaça saíram os Eguns. Ela se assustou e gritou: Reiiii!
Na vez da terceira cabaça Xangô chegou e pegou para si, que era a cabaça do fogo, dos raios.


 CAVALO BRANCO

Xangô se casou com Obá em kossô entre uma conquista e outra. Eles eram muito felizes no casamento, apesar do rei não poder ver um rabo de saia em sua frente.
Um dia Xangô viu OIÁ lavando roupas na beira do rio, e se apaixonou perdidamente por ela, a quem imediatamente propôs matrimônio.
Numa certa feita o galante senhor se deparou com a bela Oxum a se mirar cantando, com seu abebé de ouro, em cima de um rochedo na cachoeira, e se enamorou dela que veio a ser a terceira esposa.
As três viviam a tranco e barranco por causa de Xangô.
Obá comprou um cavalo branco belíssimo, e o ofereceu a Xangô que adorou.
Após, algum tempo Xangô partiu para a guerra e levou Oiá na garupa deste cavalo.
Obá e Oxum esperavam pela volta de Xangô.
Obá muito triste resolveu procurar Orunmilá, que lhe disse que Xangô estava bem e vivendo feliz com Oiá; ditando o seguinte ebó para trazer ele de volta para conviver as três juntas: deveria pegar um rabo de cavalo branco, novo e prepara-lo com alguns ingredientes e dependura-lo no teto da casa.
Obá conversou com Oxum que incumbiu o senhor Bará de executar o serviço ou seja: conseguir a cauda de cavalo .
Só que por orientação de Oxum o Bará foi atrás e pegou o rabo do cavalo branco do senhor Xangô sem que Obá suspeitasse de nada.
Obá recebeu a cauda e preparou o ebó dependurando a cauda no teto.
No terceiro dia Xangô chegou em casa abatido com a morte do seu cavalo branco.
Quase caiu para trás quando viu a cauda do cavalo dependurada no teto.
Oxum apressou-se em explicar que Obá era a responsável por tudo.


CAVALO MARINHO 

Certo dia Logunedé saiu para caçar.
Quando estava no topo de uma cachoeira, olhou para baixo e viu uma linda mulher sentada nas pedras, tomando banho e se penteando.
Ele ficou fascinado pela beleza desta mulher.
Aí ele desceu e ficou olhando-a escondido.
Oxum com seu abebe, viu que havia um homem a observando.
Virou o abebe para ele.
Neste momento Logunedé se encantou e caiu nas águas em forma de cavalo marinho.
IANSÃ quando soube, correu atrás de Oxum e disse a ela que aquele menino que ela havia encantado era seu filho: Logunedé, que um dia ela havia deixado em cima de um lírio.
Oxum desfez o encantamento e disse que a partir daquele dia Logunedé viveria seis meses na terra como o pai, comendo da caça e seis meses viveria como a mãe, comendo do peixe.


CLAUSURA

Euá, filha de Obatalá e Nanã, vivia em seu castelo como se estivesse numa clausura.
O amor de Obatalá por ela era muito estranho.
A fama da beleza e da castidade da princesa chegou a todas as partes, inclusive ao reino de Xangô.
Mulherengo como era, Xangô planejou como iría seduzir Euá.

Empregou-se como jardineiro no palácio de Obatalá.
Um dia Euá apareceu na janela e admirou-se de Xangô.
Nunca havia visto um homem como aquele.
Não se tem notícia de como Euá se entregou a Xangô,no entanto,arrependida de seu ato,pediu ao pai que lhe enviasse a um lugar onde nenhum homem lhe enxergasse.
Obatalá deu-lhe o reino dos mortos.

Desde então é Euá quem, no cemitério, entrega a OIÁ os cadáveres que Obaluaiê conduz para que Orisá-Okô os coma.


CONFLITO

Um dia, foram juntas ao mercado OIÁ e Oxum, esposas de Xangô, e Iemanjá, esposa de Ogum.
Bará entrou no mercado conduzindo uma cabra.
Ele viu que tudo estava em paz e decidiu plantar uma discórdia.
Aproximou-se de Iemanjá, Oia e Oxum e disse que tinha um compromisso importante com Orunmilá.
Ele deixaria a cidade e pediu a elas que vendessem sua cabra por vinte búzios.
Propôs que ficassem com a metade do lucro obtido. Iemanjá, OIá e Oxum concordaram e Bará partiu.
A cabra foi vendida por vinte búzios.
Iemanjá, OIÁ e Oxum puseram os dez búzios de Bará a parte e começaram a dividir os dez búzios que lhe cabiam.
Iemanjá contou os búzios. Haviam três búzios para cada uma delas, mas sobraria um.
Não era possível dividir os dez em três partes iguais.
Da mesma forma Oiá e Oxum tentaram e não conseguiram dividir os búzios por igual.
Aí as três começaram a discutir sobre quem ficaria com a maior parte.
Iemanjá disse:
-é costume que os mais velhos fiquem com a maior porção, portanto, eu pegarei um búzio a mais.
Oxum rejeitou a proposta de Iemanjá, afirmando que o costume era que os mais novos ficassem com a maior porção, que por isso lhe cabia.
Oiá intercedeu, dizendo que, em caso de contenda semelhante, a maior parte caberia à do meio.
As três não conseguiam resolver a discussão.
Então elas chamaram um homem do mercado para dividir os búzios entre elas.
Ele pegou os búzios e colocou em três montes iguais, e sugeriu que o décimo búzio fosse dado a mais velha, mas OIÁ e Oxum, que eram a segunda mais velha e a mais nova, rejeitaram o conselho, elas se recusaram a dar a Iemanjá a maior parte.
Pediram a outra pessoa que dividisse e os búzios.
Ele os contou, mas não pôde dividi-los por igual.
Propôs que a parte maior fosse dado à mais nova, Iemanjá e OIÁ.
Ainda um outro homem foi solicitado a fazer a divisão, ele contou os búzios, fez três montes de três e pôs o búzio a mais de lado, ele afirmou que, neste caso, o búzio extra deveria ser dado àquela que não é nem a mais velha, nem a mais nova o búzio devia ser dado a OIÁ, mas Iemanjá e Oxum rejeitaram seu conselho, elas se recusaram a dar o búzio extra a OIÁ não havia meio de resolver a divisão.
Bará voltou ao mercado para ver como estava a discussão ele disse:
-onde está minha parte?
Elas deram a ele dez búzios e pediram para dividir os dez búzios delas de modo igual.
Bará deu três a Iemanjá, três a OIÁ e três a Oxum.
O décimo búzio ele segurou, colocou-o num buraco no chão e cobriu com terra.
Bará disse que o búzio extra era para os antepassados, conforme o costume que se seguia no orun.
Toda vez que alguém recebe algo de bom, deve-se lembrar dos antepassados, dá-se uma parte das colheitas, dos banquetes e dos sacrifícios aos orixás, aos antepassados. Assim também com o dinheiro este é o jeito como é feito no céu assim também na terra deve ser. 


COROA da CABEÇA

OIÁ estava trabalhando com Ogum, seu marido ferreiro, na oficina dele no dia dos ancestrais.
Ogum batia o ferro na bigorna enquanto OIÁ assoprava o fogo com o fole.
OIÁ alegre como sempre, trabalhava e produzia música.
Conseguindo involuntariamente atrair os Egunguns para a porta da oficina.
Ogum ficou tão orgulhoso de OIÁ que tirou o próprio capacete da cabeça, acorô, e ofereceu a OIÁ chamando-a acorô de minha cabeça.


DANÇARINA

Certa vez houve uma festa com todos os Orixás presentes.
Omulu-Obaluaê chegou vestindo seu capucho de palha.
Ninguém o podia reconhecer sob o disfarce e nenhuma mulher quis dançar com ele.
Só OIÁ, corajosa, atirou-se na dança com o senhor da Terra.
Tanto girava OIÁ na sua dança que provocava vento.
E o vento de OIÁ levantou as palhas e descobriu o corpo de Obaluaê.
Para surpresa geral, era um belo homem.
O povo o aclamou por sua beleza.
Obaluaê ficou mais do que contente com a festa, ficou grato e em recompensa, dividiu com ela o seu reino.
Fez de OIÁ a rainha dos espíritos dos mortos.
Rainha que é OIÁ Igbalé, a condutora dos Eguns.
OIÁ então dançou e dançou de alegria para mostrar a todos seu poder sobre os mortos, quando ela dançava, agitava no ar o iruquerê, o espanta-mosca com que afasta os Eguns para o outro mundo.
Rainha OIÁ Igbalé, a condutora dos espíritos.
Rainha que foi sempre a grande paixão de Omulu.



CHUVA DA CURA

Chegando de viagem, Omulú viu que estava acontecendo uma grande festa com a presença de todos os Orixás.
Devido à sua timidez e vergonha, decidiu ficar do lado de fora, espreitando pelas frestas do terreiro.
Ogun, percebendo a angústia do irmão, convidou-o para entrar e aproveitar a alegria dos festejos. Apesar de envergonhado, Omulú entrou, mas ninguém se aproximava dele.
IANSÃ tudo acompanhava com o rabo do olho.
Ela compreendia a triste situação de Omulú e dele se compadecia.
A festa estava muito animada e IANSÃ esperou que ele estivesse bem no meio do barracão.
Os Orixás dançavam alegremente com suas equedês. IANSÃ chegou então bem perto dele e soprou suas roupas de palha, levantou-lhe as palhas que cobriam sua pestilência.
Neste momento de encanto e ventania, as feridas de Omulú pularam para o alto, transformadas numa chuva de pipocas, que se espalharam brancas pelo barracão.
Omulú, o Orixá das doenças, transformara-se num jovem, num jovem belo e encantador.
Omulú e IANSÃ tornaram-se grandes amigos e reinam juntos sobre o mundo dos espíritos dos mortos, partilhando o poder único de abrir e interromper as demandas dos mortos sobre os humanos.


 DESENTENDIMENTO

OIÁ andava pelo mundo disfarçada de novilha.
Um dia Odé a viu sem a pele e se apaixonou.
Casou-se com Oiá e escondeu a pele da novilha, para ela não fugir dele.
OIÁ teve dezesseis filhos com Odé.
Oxum, que era a primeira esposa de Odé e que não tinha filhos, foi quem criou todos os filhos de OIÁ.
O primeiro a nascer chamou-se Togum.
Depois nasceram os gêmeos, os Ibejis, e depois deles, Idoú.
Nasceu depois uma menina Alabá, seguida do menino Odobé.
E depois os demais filhos de OIÁ e Odé.
Os meninos pareciam-se com o pai, as meninas, com a mãe.
OIÁ tinha os filhos que Oxum criava e assim viviam na casa de Odé.
Um dia as duas mães se desentenderam.
Oxum mostrou a OIÁ onde estava sua pele.
OIÁ recuperou a pele de novilha, reassumiu sua forma animal e fugiu.


DIREITO ADQUIRIDO

 Em certa época, as mulheres eram relegadas a um segundo plano em suas relações com os homens. Então elas resolveram punir seus maridos, mas sem nenhum critério ou limite, abusando desta decisão, humilhando-os em demasia.
OIÁ era a líder das mulheres, e elas se reuniram na floresta.
OIÁ havia domado e treinado um macaco marrom.
Utilizara para isso um galho de atori (ixan) e o vestia com uma roupa feita com várias tiras de pano coloridas, de modo que ninguém via o macaco sob os panos.
Seguindo um ritual, conforme OIÁ brandia o ixan no solo o macaco pulava de uma árvore e aparecia de forma alucinante, movimentando-se como fora treinado a fazer.
Deste modo, durante a noite, quando os homens por lá passavam, as mulheres, que estavam escondidas faziam o macaco aparecer e eles fugiam totalmente apavorados.
Cansados de tanta humilhação, os homens foram ver o babalao para tentar descobrir o que estava acontecendo.
Através do jogo de Ifá, e para punir as mulheres, o babalao lhes conta a verdade. Ele os ensina como vencer as mulheres através de sacrifícios e astúcia.
Ogun foi o encarregado da missão. Ele chegou ao local das aparições antes das mulheres.
Vestiu-se com vários panos, ficando totalmente encoberto, e se escondeu.
Quando as mulheres chegaram, ele apareceu subitamente, correndo, berrando e brandindo sua espada pelos ares.
Todas fugiram apavoradas, inclusive OIÁ.
Desde então os homens dominaram as mulheres e as expulsaram para sempre do culto de Egun.


DESCOBERTA

Há quem diga que OIÁ foi namorada de Obaluaê e conseguiu que ele mostrasse o rosto sob as palhas.
Provocou um grande vento e o azê foi levantado.
Ficou surpresa por que o rosto de Obaluaê era belíssimo.
Obaluaê gosta muito de OIÁ e de sua espontaneidade desinteressada.
Ela é alegre, bonita, brejeira e generosa muitas vezes OIÁ acompanha Euá em suas inúmeras viagens ao céu, rumo ao reino de Oxumarê, e em contrapartida OIÁ é acompanhada pela Euá no transporte dos espíritos do aiê ao orun.


DESOBEDIENTE

Xangô enviou OIÁ em missão na terra dos baribas, a fim de buscar um preparado que, uma vez ingerido, lhe permitiria lançar fogo e chamas pela boca e pelo nariz.
OIÁ, desobedecendo às instruções do esposo, experimentou esse preparado, tornando-se também capaz de cuspir fogo, para grande desgosto de Xangô, que desejava guardar só para si esse terrível poder.
OIÁ foi ao entanto, a única das mulheres de Xangô que, ao final do seu reinado, segui-o na sua fuga para Tapá.
E, quando Xangô recolheu-se para debaixo da terra, em Kossô ela fez o mesmo em Irá.


 ENFORCADO

Certa feita Xangô quase é convencido por Euá e Ossaim a se enforcar.
Seu reino, de Oió estava afundando e ele, ingenuamente, fora se aconselhar com Euá, a qual junto com Ossaim, que lhe aconselhavam a enforcar-se e morrer gloriosamente.
Se não fosse OIÁ, o rei teria se enforcada mesmo.


ESTRONDO

 Xangô vivia em seu reino com suas 3 mulheres, IANSÃ, Oxum e Obá, muitos servos, exércitos, gado e riquezas.
Certo dia, ele subiu num morro próximo, junto com IANSÃ.
Ele queria testar um feitiço que inventara para lançar raios muito fortes.
Quando recitou a fórmula, ouviu-se uma série de estrondos e muitos raios riscaram o céu.
Quando tudo se acalmou, Xangô olhou em direção à cidade e viu que seu palácio fora atingido.
Ele e IANSÃ correram para lá e viram que não havia sobrado nada nem ninguém.
Desesperado, Xangô bateu com os pés no chão e afundou pela terra.
IANSÃ o imitou.

 FERRO E RAIOS

Antes de se tornar mulher de Xangô, OIÁ tinha vivido com Ogum.
A aparência do deus do ferro e dos ferreiros causou-lhe menos efeito que a elegância, o garbo e o brilho do deus do trovão.
Ela fugiu com Xangô, e Ogum, enfurecido, resolveu enfrentar seu rival.
Mas este último foi à procura de Olodumaré, o deus supremo, para lhe confessar que havia ofendido a Ogum.
Olodumaré interveio junto ao amante traído e recomendou-lhe que perdoasse a afronta.
E explicou-lhe:
-Você, Ogum, é mais velho do que Xangô!
Se, como mais velho, deseja preservar sua dignidade aos olhos de Xangô e aos dos outros orixás, você não deve se aborrecer nem brigar e sim renunciar a OIÁ sem recriminações.
Mas Ogum não foi sensível a esse apelo, dirigido aos sentimentos de indulgência.
Não se resignou tão calmamente assim, lançou-se à perseguição dos fugitivos e, trocou golpes de varas mágicas com a mulher infiel, que foi, então, dividida em nove partes.

FOGO PELA BOCA

Xangô enviou IANSÃ em missão na terra dos baribas, a fim de buscar um preparado que, uma vez ingerido, lhe permitiria lançar fogo e chamas pela boca e pelo nariz.
OIÁ, desobedecendo às instruções do esposo, experimentou esse preparado, tornando-se também capaz de cuspir fogo, para grande desgosto de Xangô, que desejava guardar só para si esse terrível poder.

 FUJIDINHA

Oxum teve uma grande paixão na sua vida: Odé, mais na época era casada com Ogun e não podia ter nada com Odé.
Numa das saídas de Ogun para guerrear, Oxum encontrou Odé e dele ela engravidou.
Nove meses depois, quando a criança estava para nascer, Ogun mandou recado que estava regressando.
Oxum não podia mostrar a ela a criança.
Ela deu a luz a um menino e o pôs em cima de um lírio e ali o deixou e foi embora.
IANSÃ passando viu aquela criança e sabia que era de Oxum, pegou e criou Logunedé.
IANSÃ o ensinou a caçar e pescar.
Logunedé viveu com IANSÃ durante muito tempo.


FILHOS DA VIOLÊNCIA

OIÁ não podia ter filhos, procurou o conselho de um babalaô, ele revelou-lhe que somente teria filhos quando fosse possuída por um homem com violência.
Um dia Xangô a possuiu assim e dessa relação OIÁ teve nove filhos, desses filhos, oito nasceram mudos.
OIÁ procurou novamente o babalaô, ele recomendou que ela fizesse oferendas.
Tempos depois nasceu um filho que não era mudo, mas tinha uma voz estranha, rouca, profunda, cavernosa.
Esse filho foi Egungum, o antepassado que fundou cada família.
Hoje, quando Egungum volta para dançar entre seus descendentes, usando suas ricas máscaras e roupas coloridas, somente diante de uma mulher ele se curva. Somente diante de OIÁ se curva Egungum.

 MAL AMADO

Logunedé tinha tudo, menos o amor das mulheres, pois mesmo IANSÃ, quando roubada de Ogum por Xangô, abandona Logunedé com seu tio, criando assim um profundo antagonismo entre Xangô e Logunedé, já que por duas vezes Xangô lhe tira a mãe.


SEDUÇÃO E CONHECIMENTO

Embora tenha sido esposa de Xangô, IANSÃ percorreu vários reinos e conviveu com vários reis.
Foi paixão de Ogum, Oxaguiam e de Bará.
Conviveu e seduziu Odé, Logunedé e tentou em vão relacionar-se com Obaluaê.
IANSÃ percorreu vários reinos usando sua inteligência, astúcia e sedução para aprender de tudo e conhecer igualmente tudo.
Em Irê, terra de Ogum foi a grande paixão do Guerreiro.
Aprendeu com ele o manuseio da espada e ganhou dele o direito de usá-la.
Depois partiu e foi para Oxogbo, terra de Oxaguiam. Com ele aprendeu o uso do escudo para se defender de ataques inimigos e recebeu o direito de usá-lo.
Depois partiu e nas estradas deparou-se com Bará. Com ele aprendeu os mistérios do fogo e da magia.
No reino de Odé, seduziu o deus da Caça, e aprendeu a caçar, a tirar a pele do búfalo e se transformar naquele animal com a ajuda da magia aprendida com Bará.
Seduziu Logunedé e com ele aprendeu a pescar.
Foi para o reino de Obaluaiê, pois queria descobrir seus mistérios e conhecer seu rosto.
Lá chegando, insinuou-se. Mas muito desconfiado, Obaluaê perguntou o que OIÁ queria e ela respondeu: 
-queria ser sua amiga. 
Então, fez sua dança dos ventos, que já havia seduzido vários reis. Contudo, sem emocionar ou sequer atrair a atenção de Obaluaiê.

Incapaz de seduzi-lo, Iansã procurou apenas aprender, fosse o que fosse. Assim dirigiu-se ao homem da palha: 
-Aprendi muito com os outros reis, mas só me falta aprender algo contigo.
- Quer mesmo aprender, OIA?

-Vou te ensinar a tratar dos Mortos.
Venceu seu medo com sua ânsia de aprender e com ele descobriu como conviver com os Eguns e a controlá-los. Partiu então para o reino de Xangô, pois lá acreditava que teria o mais vaidoso dos reis e aprenderia a viver ricamente.

Mas ao chegar ao reino do rei do trovão, IANSÃ aprendeu mais do que isso, aprendeu a amar verdadeiramente e com uma paixão violenta, pois Xangô dividiu com ela os poderes do raio e deu à ela seu coração.
O fogo das paixões, o fogo da alegria e o que queima. Ela é o Orixá do Fogo.


NA MESMA MOEDA

Conta o mito que OIÁ disputava com o marido Ogum o primeiro lugar em valentia.
Um belo dia, OIÁ convocou todas as mulheres na tarefa de pregar uma peça no senhor da guerra.
Para isto vestiram um macaco com panos coloridos dos pés a cabeça e soltaram o animal no local onde Ogum costumava passar. Quando Ogun viu o monstrengo correu, para deleite de OIÁ e das outras mulheres.
A façanha se repetiu por 3 dias, encarregando-se OIÁ de espalhar o ocorrido.
Após o terceiro dia de susto Ogun resolveu consultar Orunmilá, que o orientou a chegar no lugar dos fatos 2 horas antes do horário costumeiro e se escondesse na mata. Cumprindo o determinado pelo senhor da adivinhação Ogun colocou-se a espreita e viu todo o ocorrido com indignação.
Jurou vingança, furioso juntou os homens e deu o troco em OIÁ e nas demais mulheres, com a mesma moeda.
Vestiu um macaco do mesmo jeito e esperou que elas chegassem. Não deu outra, elas saíram gritando de medo e, como punição as mulheres foram excluídas de participar do segredo do culto dos Eguns.


O ENCANTADO

Logunedé era filho de Odé com Oxum.
Príncipe do encanto e da magia.
Odé e Oxum eram dois Orixás muito vaidosos.
Orgulhosos, eles viviam às turras.
A vida do casal estava insuportável e resolveram que era melhor separar.
O filho ficaria metade do ano nas matas com Odé e a outra metade com Oxum no rio.
Com isso, Logunedé se tornou uma criança de personalidade dupla: cresceu metade homem, metade mulher.
Oxum proibiu Logunedé de brincar nas águas fundas, pois os rios eram traiçoeiros para uma criança de sua idade.
Mas Logunedé era curioso e vaidoso como os pais.
Logunedé não obedecia à mãe.
Um dia Logun nadou rio adentro, para bem longe da margem.
Obá, dona do rio, para vingar-se de Oxum, com quem mantinha antigas brigas, começou a afogar Logun.
Oxum ficou desesperada e pediu a Orunmilá que lhe salvasse o filho, que a amparasse nos seu desespero de mãe.
Orunmilá que sempre atendia à filha de Oxalá, retirou o príncipe das águas traiçoeiras e o trouxe de volta à terra.
Então deu-lhe a missão de proteger os pescadores e a todos que vivessem das águas doces.
Dizem que OIÁ quem retirou Logunedé da água e terminou de criá-lo juntamente com Ogun.


OFERTÓRIO

Xangô e IANSÃ tiveram filhos gêmeos, os Ibejis.
As crianças eram lindas e cresciam fortes para alegria e orgulho de seus pais.
Houve, porém, na cidade em que viviam, uma peste avassaladora que infectava e matava crianças em poucas horas.
Para desespero de IANSÃ, um dos gêmeos foi vitima da doença e morreu sem que ninguém pudesse fazer nada para salvá-lo.
IANSÃ, a partir desse dia, entrou em profunda depressão, a vida já não apresentava motivos para seguir adiante. Soprou o vento que sempre trazia, para longe e já não comandava as grandes tempestades que passaram a destruir de forma implacável todas as terras.
Em um de seus desvaneios, arrumou um boneco de madeira e vestindo-o, colocou-o num lugar de honra em sua casa. Era o canto sagrado que ninguém podia transpor apenas ela podia ali entrar acompanhada de sua mágoa e dor.
Todos os dias entregava um pequeno presente aos pés do boneco e chorava copiosamente enquanto conversava como se fosse seu pequeno filho.
Olorum, ao ver tamanha tristeza, teve tanto dó da mãe sofredora, que uma lágrima pura e límpida caiu de seus olhos exatamente sobre a cabeça do boneco.
A pequena gota mágica fez o menino reviver e IANSÃ teve seu filho de volta.
Ainda hoje os Ibejis e outras crianças, com sua alegria infantil correm pelos jardins do Orum, sempre observados com doçura pelo amoroso olhar materno da grande guerreira.

PERALTAGEM

Certa ocasião IANSÃ encontrou Oxalá queixando-se de uma ferida na perna e, dizendo que iria cura-lo colocou sal e pimenta e cobriu-lha a ferida com uma ..., abandonando Oxalá. E quem socorreu foi Oxum.


PROIBIÇÃO

OIÁ não podia ter filhos, e foi consultar o babalao.
Este lhe disse, que, se fizesse sacrifícios, ela os teria.
Um dos motivos de não os ter ainda era porque ela não respeitava o seu tabu alimentar que proibia comer carne de carneiro.
O sacrifício seria de 18.000 mil búzios como pagamento, muitos panos coloridos e carne de carneiro.
Com a carne ele preparou um ebó para que ela o comesse, e nunca mais ela deveria comer desta carne.
Quanto aos panos, deveriam ser entregues como oferenda.
Ela assim fez e, tempos depois, deu à luz nove filhos. Daí em diante ela também passou a ser conhecida pelo nome de Iyá omo mésan, que quer dizer a mãe de nove filhos e que se aglutina IANSÃ.


RECOMPENSA

Houve uma festa e todos os Orixás estavam presentes. Menos Xapanã que ficara do lado de fora. Ogum pergunta por que o irmão não vem e Nanã responde que é por vergonha de suas feridas causadas pelas doenças.
Ogum resolve ajudá-lo e o leva até a floresta onde tece para ele uma roupa de palha que lhe cobre o corpo todo. O filá! Mas a ajuda não dá muito certo, pois muitos viram o que Ogum fizera e continuavam a ter nojo de dançar com o jovem Orixá, menos IANSÃ, altiva e corajosa, dança com ele e com eles o vento de IANSÃ que levanta a palha e para espanto de todos, revela um homem lindo, sem defeito algum.
Todos os Orixás presentes, ficam estupefatos com aquela beleza, principalmente Oxum, que se enche de inveja, mas agora é tarde, Xapanã não quer mais dançar com ninguém.
Em recompensa pelo gesto de IANSÃ, Xapanã dá a ela o poder de também reinar sobre os mortos.
Mas daquele dia em diante, Xapanã declarou que somente dançaria sozinho. 


 REVANCHE

Toda vez que Obá passava a mão no rosto, ou se mirava nas águas de seu rio, a odô obá vê o aleijão provocado pela velharia de Oxum.
Desejando vingar-se de Oxum da forma que mais a atingisse.
Logunedé era um menino pequeno muito travesso, que morava com sua avó Iemanjá, ele era filho de Oxum com Odé, mas um dia, o levado garoto escapou da vigilância de Iemanjá que era sua mãe adotiva e foi passear pelo mundo, andando e andando, avistou uma senhora toda vestida de roupa de montaria, em cima de uma pedra, dentro do rio barulhento, que lhe perguntou o nome.
Quando ele disse, Obá perdendo o juízo, arquitetou sua vingança. Seria a melhor vingança.
Mataria afogado o filho da Oxum.
Obá chamou-o para cima do rochedo que ela se encontrava, estimulando ele a andar de cavalo marinho e barco dourado.
Quando o menino estava se aproximando do rochedo e dali para a água, repentinamente um furacão o lançou pelos ares, conduzindo-o até a presença da avó Iemanja.
OIÁ explicou o por que que salvara o menino, e pediu agô para sua mãe.


SALMORA

IANSÃ tomou uma moringa pertencente a Orixalá, elemento do seu assentamento ritual e jogara-a ao mar. Oxalá Não pode pegar de volta por causa...


SEGURANÇA

OIÁ queria Xangô só para ela, pois sofria quando ele saía.
Para impedir que Xangô saísse de casa, chamou os mortos a sua presença, e a casa de OIÁ ficou cercada de Eguns, assim Xangô tornou-se prisioneiro de OIÁ.
Cada vez que ele tentava sair e abria a porta, os Eguns vinham ao seu encontro chiando.
Xangô aterrorizado não saía a rua, um dia na ausência de OIÁ, Oxum foi visitar Xangô que lhe contou tudo.
OXUM preparou uma garrafada com aguardente, mel, e pó de efum.


SÓ COM PERMISSÃO

Os Ajés se tinham como o todos poderosos sobre os Eguns fazia-os aparecer e desaparecer, obrigando-os a satisfazer todos os seus desejos sem o consentimento de OIÁ.
Sabendo disto, OIÁ resolveu pregar uma peça nos ajés.
Vestiu-se de Egum e saiu pela floresta. Vendo aquilo os ajés pegaram os ixãs e saíram em sua perseguição de repente OIÁ viu um buraco na terra e ali entrou.
Os ajés disseram: ele entrou por aqui e por aqui tem que sair. Ali ficaram até o anoitecer e quando, ao longe, ouviram o ilá de OIÁ perceberam no alto da montanha que ela tirava a roupa de Egum.E desde daquele dia só com o consentimento de OIÁ pode-se fazer qualquer coisa para Egun.


TEIMOSA

IANSÃ era uma das esposa de Xangô, mas diferente das outras duas que era Obá e Oxum, IANSÃ era mais teimosa e tinha espírito desafiador.
Um belo dia ela resolveu pegar para sí os cristais de Xangô os quais controlavam as almas, Xangô percebendo que tinha sido roubado foi consultar o Ifá que lhe disse que uma das esposas o havia traído lhe roubando os cristais.
Então seguindo o conselho dado por Ifá,chamou as suas três esposas e perguntou quem tinha roubado os cristais então IANSÃ foi abrir a boca para falar que não havia sido ela e saiu raio pela sua boca então Xangô logo percebeu quem foi a culpada.
Antes que Xangô pudesse castiga-la ela fugiu para as matas.
E levou com ela os cristais é claro e tornou-se uma condutora de Eguns.


TEMPESTADE

Oxaguian estava em guerra, mas a guerra não acabava nunca, tão poucas eram as armas para guerrear.
Ogun fazia as armas, mas fazia lentamente. Oxaguian pediu a seu amigo Ogun urgência, mas o ferreiro já fazia o possível.
O ferro era muito demorado para se forjar e cada ferramenta nova tardava como o tempo.
Tanto reclamou Oxaguian que OIÁ, esposa do ferreiro, resolveu ajudar Ogun a apressar a fabricação.
OIÁ se pôs a soprar o fogo da forja de Ogun e seu sopro avivava intensamente o fogo e o fogo aumentado de calor derretia o ferro mais rapidamente.

Logo Ogun conseguiu fazer muitas armas e com as armas Oxaguian venceu a guerra.
Oxaguian veio então agradecer Ogun.
E na casa de Ogun enamorou-se de OIÁ.
Um dia fugiram Oxaguian e OIÁ, deixando Ogun enfurecido e sua forja fria.
Quando mais tarde Oxaguian voltou à guerra e quando precisou de armas muito urgentemente, OIÁ teve que voltar a avivar a forja.
E lá da casa de Oxaguian, onde vivia, OIÁ soprava em direção à forja de Ogun.
E seu sopro atravessava toda a terra que separava a cidade de Oxaguian da de Ogun.
E seu sopro cruzava os ares e arrastava consigo pó, folhas e tudo o mais pelo caminho, até chegar às chamas que com furor atiçava.
E o povo se acostumou com o sopro de OIÁ cruzando os ares e logo o chamou de vento.
E quanto mais a guerra era terrível e mais urgia a fabricação das armas, mais forte soprava OIÁ a forja de Ogun. Tão forte que às vezes destruía tudo no caminho, levando casas, arrancando árvores, arrasando cidades e aldeias.
O povo reconhecia o sopro destrutivo de OIÁ e o povo chamava a isso tempestade.


TRAIÇÃO

OIÁ estava muito triste, e Euá lhe perguntou o motivo de tamanha tristeza.
OIÁ não parava de chorar, respondendo que era por causa da traição do carneiro, que quase a levara a morte.
Ela tivera que se transformar numa abóbora no meio de uma plantação de muitas abóboras, para conseguir salvar sua pele.
Será eternamente grata a abóbora.
Jamais comeria abóbora por gratidão.
O carneiro dava de seu amigo, mas na verdade era um tremendo traidor, alcaguete de primeira..., ele conduziu os inimigos de OIÁ, a sua procura, para o lugar onde ela costumava ficar.
E ele era meu amigo-Euá-amigo do peito! Amigo e confidente, ele comia na minha gamela e dormia na minha esteira.
OIÁ sempre foi ingênua, não aceitava a verdade: que os amigos é que mais causam problemas.


Ilé Yorimá*


sábado, 10 de junho de 2017

EGUNS

O CULTO DOS EGUNS NO CANDOMBLÉ
 
Os negros iorubanos originários da Nigéria trouxeram para o Brasil o culto dos seus ancestrais chamados Eguns ou Egunguns. Em Itaparica (BA), duas sociedades perpetuam essa tradição religiosa. 
Os cultos de origem africana chegaram ao Brasil juntamente com os escravos. Os iorubanos – um dos grupos étnicos da Nigéria , resultado de vários agrupamentos tribais, tais como Keto, Oyó, Itexá, Ifan e Ifé  de forte tradição, principalmente religiosa – nos enriqueceram com o culto de divindades denominadas genericamente de orixás.(Por motivos gráficos e para facilitar a leitura, os termos em língua yorubá foram aportuguesados. Ex.: orisá = orixá.)
Esses negros iorubanos não apenas adoram e cultuam suas divindades, mas também seus ancestrais, principalmente os masculinos. A morte não é o ponto final da vida para o iorubano, pois ele acredita na reencarnação (àtúnwa), ou seja, a pessoa renasce no mesmo seio familiar ao qual pertencia; ela revive em um dos seus descendentes. A reencarnação acontece para ambos os sexos; é o fato terrível e angustiante para eles não reencarnar. 

Os mortos do sexo feminino recebem o nome de Iyámi Agbá (minha mãe anciã), mas não são cultuados individualmente. Sua energia como ancestral é aglutinada de forma coletiva e representada por Iyámi Oxorongá, chamada também de Iá Nlá, a grande mãe. Esta imensa massa energética que representa o poder de ancestralidade coletiva feminina é cultuada pelas “Sociedades Geledê”, compostas exclusivamente por mulheres, e somente elas detêm e manipulam este perigoso poder. O medo da ira de Iami nas comunidades é tão grande que, nos festivais anuais na Nigéria em louvor ao poder feminino ancestral, os homens se vestem de mulher e usam máscaras com características femininas, dançam para acalmar a ira e manter, entre outras coisas, a harmonia entre o poder masculino e o feminino. 

Além da Sociedade Geledê, existe também na Nigéria a Sociedade Oro. Este é o nome dado ao culto coletivo dos mortos masculinos quando não individualizados. Oro é uma divindade tal qual Iyámi Oxorongá, sendo considerado o representante geral dos antepassados masculinos e cultuado somente por homens. Tanto Iyámi quanto Oro são manifestações de culto aos mortos. São invisíveis e representam a coletividade, mas o poder de Iami é maior e, portanto, mais controlado, inclusive, pela Sociedade Oro. 

Outra forma, e mais importante de culto aos ancestrais masculinos é elaborada pelas “Sociedades Egungum“. Estas têm como finalidade celebrar ritos a homens que foram figuras destacadas em suas sociedades ou comunidades quando vivos, para que eles continuem presentes entre seus descendentes de forma privilegiada, mantendo na morte a sua individualidade. Esse mortos surgem de forma visível mas camuflada, a verdadeira resposta religiosa da vida pós-morte, denominada Egum ou Egungum. Somente os mortos do sexo masculino fazem aparições, pois só os homens possuem ou mantém a individualidade; às mulheres é negado este privilégio, assim como o de participar diretamente do culto. 

Esses Eguns são cultuados de forma adequada e específica por sua sociedade, em locais e templos com sacerdotes diferentes dos dos orixás. Embora todos os sistemas de sociedade que conhecemos sejam diferentes, o conjunto forma uma só religião: a iorubana. 

No Brasil existem duas dessas sociedades de Egungum, cujo tronco comum remonta ao tempo da escravatura: Ilê Agboulá, a mais antiga, em Ponta de Areia, e uma mais recente e ramificação da primeira, o Ilê Oyá, ambas em Itaparica, Bahia. 

O Egum é a morte que volta à terra em forma espiritual e visível aos olhos dos vivos. Ele “nasce” através de ritos que sua comunidade elabora e pelas mãos dos Ojé (sacerdotes) munidos de um instrumento invocatório, um bastão chamado ixã, que, quando tocado na terra por três vezes e acompanhado de palavras e gestos rituais, faz com que a “morte se torne vida”, e o Egungum ancestral individualizado está de novo “vivo”. 

A aparição dos Eguns é cercada de total mistério, diferente do culto aos orixás, em que o transe acontece durante as cerimônias públicas, perante olhares profanos, fiéis e iniciados. O Egungum simplesmente surge no salão, causando impacto visual e usando a surpresa como rito. Apresenta-se com uma forma corporal humana totalmente recoberta por uma roupa de tiras multicoloridas, que caem da parte superior da cabeça formando uma grande massa de panos, da qual não se vê nenhum vestígio do que é ou de quem está sob a roupa. Fala com uma voz gutural inumana, rouca, ou às vezes aguda, metálica e estridente – característica de Egum, chamada de séègí ou sé, e que está relacionada com a voz do macaco marrom, chamado ijimerê na Nigéria (veja lendas de Oyá). 

As tradições religiosas dizem que sob a roupa está somente a energia do ancestral; outras correntes já afirmam estar sob os panos algum mariwo (iniciado no culto de Egum) sob transe mediúnico. Mas, contradizendo a lei do culto, os mariwo não podem cair em transe, de qualquer tipo que seja. Pelo sim ou pelo não, Egum está entre os vivos, e não se pode negar sua presença, energética ou mediúnica, pois as roupas ali estão e isto é Egum. 

A roupa do Egum – chamada de eku na Nigéria ou opá na Bahia -, ou o Egungum propriamente dito, é altamente sacra ou sacrossanta e, por dogma, nenhum humano pode tocá-la. Todos os mariwo usam o ixã para controlar a “morte”, ali representada pelos Eguns. Eles e a assistência não devem tocar-se, pois, como é dito nas falas populares dessas comunidades, a pessoa que for tocada por Egum se tornará um “assombrado”, e o perigo a rondará. Ela então deverá passar por vários ritos de purificação para afastar os perigos de doença ou, talvez, a própria morte. 

Ora, o Egum é a materialização da morte sob as tiras de pano, e o contato, ainda que um simples esbarrão nessas tiras, é prejudicial. E mesmo os mais qualificados sacerdotes – como os ojé atokun, que invocam, guiam e zelam por um ou mais Eguns – desempenham todas essas atribuições substituindo as mãos pelo ixã. 

Os Egum-Agbá (ancião), também chamados de Babá-Egum (pai), são Eguns que já tiveram os seus ritos completos e permitem, por isso, que suas roupas sejam mais completas e suas vozes sejam liberadas para que eles possam conversar com os vivos. Os Apaaraká são Eguns mudos e suas roupas são as mais simples: não têm tiras e parecem um quadro de pano com duas telas, uma na frente e outra atrás. Esses Eguns ainda estão em processo de elaboração para alcançar o status de Babá; são traquinos e imprevisíveis, assustam e causam terror ao povo. 

O eku dos Babá são divididos em três partes: o abalá, que é uma armação quadrada ou redonda, como se fosse um chapéu que cobre totalmente a extremidade superior do Babá, e da qual caem várias tiras de panos coloridas, formando uma espécie de franjas ao seu redor; o kafô, uma túnica de mangas que acabam em luvas, e pernas que acabam igualmente em sapatos; e o banté, que é uma tira de pano especial presa no kafô e individualmente decorada e que identifica o Babá. 

O banté, que foi previamente preparado e impregnado de axé (força, poder, energia transmissível e acumulável), é usado pelo Babá quando está falando e abençoando os fiéis. Ele sacode na direção da pessoa e esta faz gestos com as mãos que simulam o ato de pegar algo, no caso o axé, e incorporá-lo. Ao contrário do toque na roupa, este ato é altamente benéfico. Na Nigéria, os Agbá-Egum portam o mesmo tipo de roupa, mas com alguns apetrechos adicionais: uns usam sobre o alabá mascaras esculpidas em madeira chamadas erê egungum; outros, entre os alabá e o kafô, usam peles de animais; alguns Babá carregam na mão o opá iku e, às vezes, o ixã. Nestes casos, a ira dos Babás é representada por esses instrumentos litúrgicos. 

Existem várias qualificações de Egum, como Babá e Apaaraká, conforme sus ritos, e entre os Agbá, conforme suas roupas, paramentos e maneira de se comportarem. As classificações, em verdade, são extensas. 

Nas festas de Egungum, em Itaparica, o salão público não tem janelas, e, logo após os fiéis entrarem, a porta principal é fechada e somente aberta no final da cerimônia, quando o dia já está clareando. Os Eguns entram no salão através de uma porta secundária e exclusiva, único local de união com o mundo externo. Os ancestrais são invocados e eles rondam os espaços físicos do terreiro. Vários amuxã (iniciados que portam o ixã) funcionam como guardas espalhados pelo terreiro e nos seus limites, para evitar que alguns Babá ou os perigosos Apaaraká que escapem aos olhos atentos dos ojés saiam do espaço delimitado e invadam as redondezas não protegidas.

Os Eguns são invocados numa outra construção sacra, perto mas separada do grande salão, chamada de ilê awo (casa do segredo), na Bahia, e igbo igbalé (bosque da floresta), na Nigéria. O ilê awo é dividido em uma ante-sala, onde somente os ojé podem entrar, e o lèsànyin ou ojê agbá entram. 

Balé é o local onde estão os idiegungum, os assentamentos – estes são elementos litúrgicos que, associados, individualizam e identificam o Egum ali cultuado – , e o ojubô-babá, que é um buraco feito diretamente na terra, rodeado por vários ixã, os quais, de pé, delimitam o local. 

Nos ojubô são colocadas oferendas de alimentos e sacrifícios de animais para o Egum a ser cultuado ou invocado. No ilê awo também está o assentamento da divindade Oyá na qualidade de Igbalé, ou seja, Oyá Igbalé – a única divindade feminina venerada e cultuada, simultaneamente, pelos adeptos e pelos próprios Eguns (veja Mitos Oyá-Egum). 

No balé os ojê atokun vão invocar o Egum escolhido diretamente no assentamento, e é neste local que o awo (segredo) – o poder e o axé de Egum – nasce através do conjunto ojê-ixã/idi-ojubô. A roupa é preenchida e Egum se torna visível aos olhos humanos. 

Após saírem do ilê awo, os Eguns são conduzidos pelos amuxã até a porta secundária do salão, entrando no local onde os fiéis os esperam, causando espanto e admiração, pois eles ali chegaram levados pelas vozes dos ojê, pelo som dos amuxã, brandindo os ixã pelo chão e aos gritos de saudação e repiques dos tambores dos alabê (tocadores e cantadores de Egum). O clima é realmente perfeito.

O espaço físico do salão é dividido entre sacro e profano. O sacro é a parte onde estão os tambores e seus alabê e várias cadeiras especiais previamente preparadas e escolhidas, nas quais os Eguns, após dançarem e cantarem, descansam por alguns momentos na companhia dos outros, sentados ou andando, mas sempre unidos, o maior tempo possível, com sua comunidade. Este é o objetivo principal do culto: unir os vivos com os mortos. 

Nesta parte sacra, mulheres não podem entrar nem tocar nas cadeiras, pois o culto é totalmente restrito aos homens. Mas existem raras e privilegiadas mulheres que são exceção, como se fosse a própria Oyá; elas são geralmente iniciadas no culto dos orixás e possuem simultaneamente oiê (posto e cargo hierárquico) no culto de Egum – estas posições de grande relevância causam inveja à comunidade feminina de fiéis. São estas mulheres que zelam pelo culto, fora dos mistérios, confeccionando as roupas, mantendo a ordem no salão, respondendo a todos os cânticos ou puxando alguns especiais, que somente elas têm o direito de cantar para os Babá. Antes de iniciar os rituais para Egum, elas fazem uma roda para dançar e cantar em louvor aos orixás; após esta saudação elas permanecem sentadas junto com as outras mulheres. Elas funcionam como elo de ligação entre os atokun e os Eguns ao transmitir suas mensagens aos fiéis. Elas conhecem todos os Babá, seu jeito e suas manias, e sabem como agradá-los(ver quadro: oiê femininos). 

Este espaço sagrado é o mundo do Egum nos momentos de encontro com seus descendentes. Assistência está separada deste mundo pelos ixã que os amuxã colocam estrategicamente no chão, fazendo assim uma divisão simbólica e ritual dos espaços, separando a “morte” da “vida”. É através do ixã que se evita o contato com o Egun: ele respeita totalmente o preceito, é o instrumento que o invoca e o controla. às vezes, os mariwo são obrigados a segurar o Egum com o ixã no seu peito, tal é a volúpia e a tendência natural de ele tentar ir ao encontro dos vivos, sendo preciso, vez ou outra, o próprio atokun ter de intervir rápida e rispidamente, pois é o ojê que por ele zela e o invoca, pelo qual ele tem grande respeito. 

O espaço profano é dividido em dois lados: à esquerda ficam as mulheres e crianças e à direita, os homens. Após Babá entrar no salão, ele começa a cantar seus cânticos preferidos, porque cada Egum em vida pertencia a um determinado orixá. Como diz a religião, toda pessoa tem seu próprio orixá e esta característica é mantida pelo Egum. Por exemplo: se alguém em vida pertencia a Xangô, quando morto e vindo com Egum, ele terá em suas vestes as características de Xangô, puxando pelas cores vermelha e branca. Portará um oxê (machado de lâmina dupla), que é sua insígnia; pedirá aos alabês que toquem o alujá, que também é o ritmo preferido de Xangô, e dançará ao som dos tambores e das palmas entusiastas e excitantemente marcadas pelo oiê femininos, que também responderão aos cânticos e exigirão a mesma animação das outras pessoas ali presentes. 

Babá também dançará e cantará suas próprias músicas, após ter louvado a todos e ser bastante reverenciado. Ele conversará com os fiéis, falará em um possível iorubá arcaico e seu atokun funcionará como tradutor. Babá-Egum começará perguntando pelos seus fiéis mais freqüentes, principalmente pelos oiê femininos; depois, pelos outros e finalmente será apresentado às pessoas que ali chegaram pela primeira vez. Babá estará orientando, abençoando e punindo, se necessário, fazendo o papel de um verdadeiro pai, presente entre seus descendentes para aconselhá-los e protegê-los, mantendo assim a moral disciplina comum às suas comunidades, funcionando como verdadeiro mediador dos costumes e das tradições religiosas e laicas. 


Finalizando a conversa com os fiéis e já tendo visto seus filhos, Babá-Egum parte, a festa termina e a porta principal é aberta: o dia já amanheceu. Babá partiu, mas continuará protegendo e abençoando os que foram vê-lo.

 Esta é uma breve descrição de Egungum, de uma festa e de sua sociedade, não detalhada, mas o suficiente para um primeiro e simples contato com este importante lado da religião. E também para se compreender a morte e a vida através das ancestralidades cultuadas nessas comunidades de Itaparica, como um reflexo da sobrevivência direta, cultural e religiosa dos iorubanos da Nigéria.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Cristão Confuso

10 Curiosidades sobre a Umbanda.

10 curiosidades sobre umbanda

Dia desses, durante uma aula dominical, percebi uma certa confusão entre meus alunos sobre esta religião, por isso resolvi escrever o post, mesmo não querendo revisitar o assunto.

Antes, informo que a lista abaixo não faz apologia ou tenta denegrir a crença alheia. São apenas curiosidades dessa religião que se iniciou nas senzalas.


10. A Umbanda é a mistura de várias religiões.

10 curiosidades sobre umbandaRecebe o nome de Umbanda um dos vários cultos religiosos sincréticos (que procura conciliar diversas doutrinas) surgidos no Brasil, fruto do contato dos diferentes povos que contribuíram para a formação cultural e religiosa da população. A palavra umbanda deriva de m'banda, que em língua quimbundo (língua nacional de Angola) significa "sacerdote" ou "curandeiro". O culto irá combinar elementos da filosofia espírita kardecista, dos vários cultos afro-brasileiros, tradições indígenas, do cristianismo católico e modernamente, conhecimento vindo de cultos esotéricos. Por ter nascido e se desenvolvido nas classes mais humildes da população brasileira, a condução e filosofia do culto muitas vezes ainda difere, havendo visões até mesmo conflitantes acerca de vários conceitos da religião entre seus praticantes.

09. O “fundador” da Umbanda tinha 17 anos quando ingressou no Espiritismo.

10 curiosidades sobre umbandaA história da umbanda nas suas primeiras décadas se confunde com a de Zélio Fernandino de Moraes, natural de Niterói, capital do então estado do Rio de Janeiro. Zélio, acometido de estranha paralisia que desafiava os médicos, certo dia levantou-se do leito e declarou: "- Amanhã estarei curado." No dia seguinte, realmente, o jovem de 17 anos não aparentava qualquer sinal da doença.

Depois de muita discussão, um amigo da família convence todos a visitarem a Federação Espírita de Niterói e assistir uma sessão. Convidado a participar, Zélio logo é tomado de uma força sobrenatural, e diz: "-Aqui está faltando uma flor!". Em seguida, colhe uma flor do jardim do prédio e deposita-a à mesa.

Atordoados, os outros participantes da sessão começaram a incorporar espíritos que se intitulavam pretos escravos e índios (de acordo com a tradicional linha kardecista, somente espíritos "evoluídos", de doutores, intelectuais, pensadores, etc. deveriam ser incorporados; espíritos como os referidos eram considerados atrasados e deviam ser evitados). Por fim, o espírito que incorporara em Zélio se revela como o Caboclo da Sete Flechas, o senhor dos caminhos, que, desconcertado com o preconceito racial e cultural dos praticantes kardecistas, anuncia que irá criar uma nova religião onde os negros e índios considerados espíritos atrasados, poderão se manifestar e dividir com a humanidade seus conhecimentos.

Dito e feito, às 20:00 do dia 16 de novembro de 1908, manifestou-se o caboclo em Zélio, anunciando a criação da nova religião. Em nome de tal espírito, Zélio, com a ajuda de um pequeno grupo crente, passou a realizar curas e logo fundou o primeiro espaço dedicado ao culto, a Tenda de Umbanda Nossa Senhora da Piedade, registrada em cartório em 1908 e ainda funcionando.

08. A mistura das imagens católicas com símbolos do candomblé ocorreu por causa do medo dos senhores das senzalas.

10 curiosidades sobre umbanda

Os senhores escravagistas, acostumados a aplicar castigos físicos em seus escravos, associavam as doenças e males ocorridos a seus familiares aos rituais feitos nas senzalas logo após os espancamentos dos negros.

10 curiosidades sobre umbandaBuscando evitar isso, os senhores da Casa Grande trataram de “catequizar” os escravos, obrigando-os a cultuar os santos da religião católica, proibindo o que denominavam “macumba”. Com a distribuição das imagens a serem cultuadas, os africanos começaram a associar os santos com as entidades do Candomblé. A representação das matas, o orixá Oxóssi, foi ligado a São Sebastião, não pela imagem humana, mas por ela se apresentar morto e atado a uma árvore, ícone da natureza. O simbolismo da guerra de Santa Bárbara (Joana d'Arc) foi associada a Iansã, a católica Nossa Senhora com Iemanjá, Oxalá com Jesus.

Essa associação gerada como recurso para conseguir cultuar os deuses da África dura até hoje, e podem ser vistos nos altares, junto a estatuas de “eguns”, o que não era aceito na época.

07. A religião original não aceitava o contato com “Eguns” (espíritos de pessoas já falecidas).

10 curiosidades sobre umbanda

Para o africano, o contato com espíritos de pessoas que já morreram era prática condenável

( o que vai em concordância com a bíblia), mas eles acreditavam que alguns ancestrais dos escravos, anciões já falecidos das tribos escravizadas, começaram a encarnar nos escravos. Também começaram a vir índios caboclos, marinheiros ébrios, boiadeiros, crianças, entre as entidades também chamadas de exus.

Os primeiros a aceitarem esse tipo de espiritualidade foram o chamado Candomblé de Caboclo, que em 1865, bem antes do nascimento de Zélio, que viria a oficializar a religião em cartório, começou a trabalhar diretamente com essas entidades.

06. Macumba não é macumba!

No início do século XX, com o surgimento da “giras” de Umbanda, muitas vezes realizadas nas praias, começou a ser conhecida pelo termo macumba.
10 curiosidades sobre umbanda
Macumba nada mais é que um determinado tipo de reco-reco usado durante as giras; e por ser um instrumento musical, as pessoas referiam-se da seguinte forma: "Estão batendo a macumba na praia", ficando então conhecidas as giras como macumbas ou culto Omolokô. Com o passar do tempo, tudo que envolvia algo que não se enquadrava nos ensinamentos impostos pelo catolicismo, protestantismo, e outras religiões, era considerado macumba. Com isso, acabou por virar um termo pejorativo.

Então, podemos definir que um macumbeiro nada mais é que um tocador de reco-reco estilizado.

05. Exu não é necessariamente o demônio

10 curiosidades sobre umbandaO exu do candomblé é totalmente diferente do da umbanda, já que no candomblé não se encarnam espíritos, e o mesmo é um Orixá mensageiro e não possuem os atributos demoníacos atribuídos aos da umbanda.

O chamado brincalhão Exu só em um período posterior ( na fase do sincretismo) foi reinterpretado e até marginalizado nos cultos afro-brasileiros, notadamente na Umbanda.

Foi na influência Católica da colonização e formação político-social do Brasil que Exu foi associado ao demônio, mesmo antes da fundação da Umbanda. Nessa religião, entretanto, essa figura foi complementada como entidade maligna. e se tornou o representante do diabo, do perigo e da imoralidade (para o caso da Pomba-gira, entidade feminina do mesmo).

Por causa dessas características, parece que os primeiros umbandistas o associaram com eguns africanos e escravos rebeldes. Exu foi, portanto, segregado da Umbanda, e se tornou o legislador da quimbanda, do submundo ou comumente chamado Umbral (inferno espírita).

10 curiosidades sobre umbandaOutra interpretação umbandista coloca Exu na ordem evolucionista de precedência, conforme o modelo kardecista. Ele é reduzido a um espírito menos evoluído que, todavia tem potencial para evoluir e se tornar um espírito bom. Alguns umbandistas distinguem entre Exu pagão e Exu batizado, que se submeteu à doutrinação e encontrou o caminho certo da escada da evolução. Essa distinção reflete algo do caráter original ambivalente de Exu, apesar do rito de passagem do batismo, que define a distinção que é certamente nova. Novamente esse batismo do Exu pagão tem sido interpretado como uma expressão e aculturação e domesticação do mal, do perigo e da imoralidade (sucubus e incubus da teologia judaica cabalística?).

04. Existem diversas hierarquias e facções dentro da religião.

Parte da Umbanda tem relação com o Espiritismo, e assim seguem as ideias de Kardec.

10 curiosidades sobre umbandaA religião chamada kardecista foi baseada nas ideias da moda na época, em plena ascensão da ideia do Evolucionismo onde a origem da vida acontecera dentro da constante evolução das espécies. O mesmo raciocínio foi incorporado a doutrina espirita, através de seus escritos.
Por isso, no evento que deu origem a Umbanda, os kardecistas rejeitavam os eguns sem escolaridade, já que Kardec defendia que um espirito evoluía através do conhecimento intelectual. Pode ser ler em seus livros sua tese que a evolução reencarnatória acontecia nas raças, partindo pelos menos evoluídos negros até o homem caucasiano europeu, loiro e branco que, segundo ele, era a ultima fase evolutiva antes de reencarnar em outro planeta.

Dessa forma, era natural que algumas ramificações da religião defendessem a busca de evolução espiritual dos exus para seres mais evoluídos.

Alguns exemplos dessas ramificações:

 Umbanda Branca e/ou de Mesa - Nesse tipo de Umbanda, em grande parte, não encontramos elementos Africanos - Orixás -, nem o trabalho de exus e pomba giras, ou a utilização de elementos como atabaques, fumo, imagens e bebidas. Essa linha doutrinária se prende mais ao trabalho de guias como caboclos, pretos-velhos e crianças. Também podemos encontrar a utilização de livros espíritas como fonte doutrinária;
• Omolokô - Trazida da África pelo Tatá Tancredo da Silva Pinto. Onde encontramos um misto entre o culto dos Orixás e o trabalho direcionado dos Guias;
• Umbanda Traçada ou Umbandomblé - Onde existe uma diferenciação entre Umbanda e Candomblé, mas o mesmo sacerdote alterna sessões de forma diferenciada;
• Umbanda Esotérica - É diferenciada entre alguns segmentos oriundos de Oliveira Magno, Emanuel Zespo e W. W. da Matta (Mestre Yapacany), em que intitulam a Umbanda como a Aumbhandan: conjunto de leis divinas;
• Umbanda Iniciática - É derivada da Umbanda Esotérica e fundamentada pelo Mestre Rivas Neto (Escola de Síntese conduzida por Yamunisiddha Arhapiagha), onde há a busca de uma convergência doutrinária (sete ritos), e o alcance do Ombhandhum, o Ponto de Convergência e Síntese. Existe uma grande influência Oriental, principalmente em termos de mantras indianos e utilização do sânscrito;

03. O uso da vela

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O uso desse artefato usado pelos umbandistas foi adotado dos católicos. O simbolismo doutrinário católico associa o objeto como Deus Pai, o pavio a Jesus e a chama ao Espírito, e nada tem haver com a relação mística dada pelos cultuadores espiritas, já que associam a chama como uma espécie de sinalizador aos espíritos e que isso daria força.


Eles associam a cor da vela com o determinado tipo de espírito e sua “linha”: se verde, o espírito é das matas, se vermelha e preta, de esquerda e está ligada a exu, se vermelha e branca, ligada a Ogum (São Jorge no sincretismo), e assim por diante

Algumas vertentes católicas porém defendem o uso dessas com a intenção de auxiliar os espíritos dos mortos que peregrinam pelo purgatório.

A verdadeira origem, adotada pelos católicos dos romanos, está ainda no Velho Testamento, onde podemos ver o Menorá, castiçal judaico de ouro sendo acesso com 7 velas, simbolizando os 7 Espíritos de Deus, descritos em Apocalipse.

02. A importância dos atabaques

10 curiosidades sobre umbandaEmbora não haja “ogans” (denominação exclusiva do candomblé para os tocadores de atabaques) em ambos as religiões, o músico percussionista tem que estar “consagrado” para tocar durante as giras.

Esses instrumentos são consagrados e devem ser guardados com máxima reverência, cobertos com lençóis específicos. Eles acreditam que para cada linha existe um tipo de toque específico, e a vibração correta ajudará o médium a incorporar com maior facilidade. Inverter o tipo de batida pode causar dano ao andamento de sua cerimônia.

01. Mediunidade na Umbanda
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A mediunidade não é algo novo e a prática milenar é praticada por diversos povos desde a antiguidade, embora seja rejeitada pelo que está escrito na Bíblia (curiosamente, a mesma proibição de contato com eguns existe na religião que deu origem a esta). Por isso o conflito constante entre alguns cristãos evangélicos e espiritas, onde o sincretismo faz com que haja semelhança com o catolicismo, provoca um mal estar pelo “radicalismo” crente.

A médium, chamado de cavalo ou aparelho na religião, empresta o corpo para que a entidade faça uso, incluindo as habilidades motoras, a fala, o uso de bebida, tabaco.

O uso “adequado” do corpo pelas entidades é aperfeiçoado na mediunidade pela entrega das “obrigações” exigidas por cada linha (tipo de elemento da entidade) o que dará ao espírito maior controle sobre o comportamento do mesmo, o que ofenderia Deus, que não aprovaria que o corpo dado fosse utilizado por criaturas que já tiveram sua oportunidade na Terra.

CURIOSIDADE EXTRA: 

ONDE FICA ARUANDA, O CÉU DOS UMBANDISTAS?:

Toda religião tem seu paraíso.

Os cristãos esperam ir a Glória com Jesus assim como os católicos esperam o paraíso com Maria, mãe de Deus. Os islâmicos esperam por suas 40 virgens patrocinadas por Alá. Pelos séculos, as religiões definem seu lugar de descanso e paz por se acharem bons o suficiente para isso.

Na umbanda, o lugar de passagem (já que creem na reencarnação evolutiva de Kardec, incompatível com a crença nas entidades que os usam que permanecem incorporando sem reencarnar) chama-se Aruanda, e segundo eles é uma cidadela de luz etérea que orbitaria a ionosfera do planeta Terra, em uma dimensão espiritual de transição (isso não é necessariamente uma unanimidade).

A origem da palavra, claro, vem dos africanos, e era o lugar que eles diziam que queriam voltar um dia.

Na verdade, é um nome que o nome dado ao porto de São Paulo, em Luanda, o principal de sua terra natal Angola.

10 curiosidades sobre umbanda

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