Mais do que oferendas, a preparação deve ser interna
O primeiro Sacerdote de Umbanda foi Zélio de Moraes, mas a pergunta é: como ele foi preparado para sua missão? No caso de Pai Zélio, ele já nasceu com esta missão, então recebeu um preparo antes de encarnar, mas este preparo pré-encarnatório, que consiste de fato na missão sacerdotal, não descarta o preparo pelo qual passamos aqui neste mundo.
O que podemos dizer é que Zélio foi preparado de forma direta por seus guias e mentores, e foi preparado pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas e Pai Antônio. E, da forma como ele foi preparado, passou a preparar outros médiuns.
Zélio de Moraes fazia desenvolvimento mediúnico e identificava aqueles que tinham a missão de comandar uma Tenda de Umbanda. Ao longo dos anos e das atividades mediúnicas, o médium ia naturalmente sendo preparado para sua missão. O trabalho de Zélio sempre foi muito simples, como é até os dias de hoje na Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade. As necessidades mediúnicas da missão de cada um são supridas de forma direta com um contato pessoal e individual com os Guias que comandam aquela casa.
Dos rituais realizados por Pai Zélio, o que mais chama a atenção é o trabalho de amaci, feito anualmente na Tenda e que evidencia o quanto esta ritualística pertence à Umbanda, assim como a defumação, banhos de ervas e oferendas. Fora este preparo sacerdotal bem pessoal e individual, temos o preparo sacerdotal desenvolvido por grandes Terreiros e Federações, com métodos e doutrina própria.
Muitas Federações e Templos adotaram linguagem e procedimentos do Candomblé, colocando como se fosse de Umbanda alguns rituais de origem Nagô-Yorubá, Gêge, Angola ou Congo. Assim, surgem “feituras sacerdotais” de Umbanda com camarinha, bori, recolhimento e obrigações nos moldes do Culto de Nação.
Alguns segmentos de Umbanda adotam as obrigações do Candomblé, em que o médium só será visto como sacerdote se tiver realizado as obrigações de um ano, três e sete anos, para depois fazer obrigação de quatorze e vinte e um anos. Isso confunde um pouco a cabeça dos umbandistas.
Pai Ronaldo Linares, por sua vez, prepara os sacerdotes por meio de seu curso de sacerdócio, com uma grande carga teórica, mesclada com práticas na natureza que consistem de oferendas e apresentações aos Orixás nos seus pontos de força, chamadas por ele de obrigações. Pai Ronaldo afirma que a palavra obrigação para ele não tem o mesmo contexto do Candomblé e que é algo que o médium se obriga a realizar.
Outros segmentos, como o Primado de Umbanda, fazem a coroa dos filhos por meio de um ritual precedido de doutrina, oferendas e obrigações, terminando com a coroação deste médium.
Rubens Saraceni, com o amparo da espiritualidade, recebeu toda uma metodologia de preparo sacerdotal para preparar novos sacerdotes em que eles recebem toda uma carga teórica doutrinária e teológica para depois passar pela apresentação e iniciação nos mistérios dos quatorze orixás e demais linhas de trabalho à direita e à esquerda, realizado no Templo.
O que podemos dizer é que existem muitas formas de se preparar um sacerdote, mas nenhuma prescinde da missão sacerdotal, recebida de forma direta da espiritualidade. Perante a espiritualidade, para ser um sacerdote de fato, deve haver esta missão.
Todos concordam que um sacerdote de Umbanda deve realizar suas oferendas na natureza para os Orixás que são por ele cultuados, e isso pode ser chamado de obrigação ou apenas de oferenda, apresentação e iniciação.
O sacerdote deve ser um médium que alcançou a maturidade mediúnica, conhecendo quem são seus Guias de trabalho, identificando o Guia chefe, o Mentor e o Guia de frente. Este sacerdote também conhece seu campo de atuação e a regência de Orixás que lhe amparam, identificando no mínimo quem são seus pais de cabeça: Orixá de Frente e de Juntó. Como isto é feito não importa muito.
Cada segmento desenvolve seu método para chegar ao mesmo objetivo. Assim, temos algumas escolas ou colégios sacerdotais dentro da Umbanda que já, há algumas décadas, vêm desenvolvendo um bom trabalho neste campo. Existe sim muita discussão em torno de qual método é o melhor ou quais obrigações um sacerdote deve fazer, questionando se foi bem preparado ou não. Esta é mesmo uma discussão vazia e sem propósito. A única coisa que vai dizer se este sacerdote foi bem preparado é o resultado de seu trabalho. Quando lhe questionarem quais obrigações foram feitas ou por qual ritual você passou, lembre-se de Zélio de Moraes e de que a Umbanda é simples, muito simples.
O que mais se espera de um sacerdote é que tenha alcançado uma maturidade mediúnica e religiosa. Pelo fato de a Umbanda ser uma religião que cultua as forças da natureza, é fundamental e indispensável que o sacerdote tenha esta ligação com a natureza e os Orixás, e a forma mais simples de criar este vínculo é por meio dos cultos e oferendas na natureza. Não são as obrigações, coroação, feitura ou as iniciações que fazem de você um sacerdote, mas é claro que estes rituais são fundamentais para lhe conferir maiores recursos junto à espiritualidade e aos Orixás, além de lhe ajudarem a se tornar mais confiante, consciente, seguro e preparado. Por isso tudo e muito mais é que podemos dizer que um curso não faz um sacerdote, no entanto um sacerdote que estuda e se prepara tem muito mais a oferecer para sua comunidade.
Existem muitas formas de se preparar um sacerdote de Umbanda, mas de nada adianta todo um preparo se não houver uma consciência da missão. De nada adianta realizar oferendas e obrigações, cumprindo todos os passos do ritual, em toda sua complexidade e preceitos, se antes este sacerdote não houver oferendado a si mesmo como instrumento dos Orixás. De nada adianta realizar coroações e evocar uma tradição se não houver, debaixo desta coroa, uma mente sincera e reta entre seus sentimentos, pensamentos, palavras e ações. É pura ilusão buscar um título de sacerdote sem antes mergulhar no caminho do autoconhecimento. É mentira dizer ou acreditar que vai ajudar os outros, fazer a “caridade”, se antes não consegue ajudar a si mesmo e aos mais próximos como sua mulher, marido, filhos, netos, pais e avós.
Não existe uma preparação sacerdotal fria e técnica quando o objetivo maior é, e sempre será, compreender o ser humano em sua complexidade, o que só é possível por meio de amor e sabedoria. Portanto, antes de se preocupar com técnicas, investidura sacerdotal, coroação, obrigação, iniciações, apresentações e títulos, procure tornar-se um templo vivo para a espiritualidade; procure o contato direto e reto com seus Guias e Mestres pessoais no Astral e procure ser antes de tudo sacerdote de si mesmo.
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